Assim que Julia Louis-Dreyfus chega ao salão do hotel Majestic de Cannes, onde a reportagem do Valor a aguarda para a entrevista, impossível não pensar nas mulheres neuróticas, sarcásticas e irritadiças que ela imortalizou na TV. Afinal, a comediante nunca escondeu que recorreu à própria personalidade — forte e arrojada — para quebrar estereótipos femininos “bem-comportados” nos sitcoms americanos. E a exemplo de personagens desbocadas, principalmente Elaine Benes, de “Seinfeld” (1989-1998), e Selina Meyer, de “Veep” (2012-2019), a atriz solta palavrões com naturalidade longe das câmeras. “Definitivamente, é difícil [para a mulher] envelhecer neste negócio. Mas que se f***! Não é como se fôssemos conseguir resolver o problema tão cedo”, diz ela.
Aos 65 anos, Louis-Dreyfus se mantém uma lenda da comédia na indústria do entretenimento, mesmo com trabalhos mais esparsos. Com a imagem sempre associada às mulheres independentes e enérgicas que interpretou, só a sua voz basta na animação “Tangles” para o público logo entender quem ela dubla aqui. Midge é uma professora cheia de vida, de opiniões e, como é comum na galeria de personagens de Louis-Dreyfus, de falhas também. E por Midge ser uma figura tão vibrante, ao redor da qual toda a sua família gira, o seu diagnóstico de Alzheimer precoce, na casa dos 50 anos, é ainda mais devastador.
O toque de comédia que a atriz imprime em tudo o que faz certamente alivia um pouco o fardo que a história carrega, ajudando todos os personagens (e também o espectador) a processarem melhor o pesadelo da demência. “Capturamos o humor negro que nasce organicamente nas circunstâncias mais sombrias. Aqui, na experiência de agonia das famílias que cuidam dos seus entes queridos, vendo a pessoa que conheciam se perder”, conta Louis-Dreyfus, de passagem pela recém-encerrada 79ª edição do Festival de Cannes. O evento francês projetou “Tangles” na mostra Séances Speciales, fora de competição, onde o filme já começou a cavar o seu caminho para disputar os maiores prêmios de animação do ano, inclusive o Oscar da categoria. Foi justamente a habilidade de tratar no universo animado um tema tão pesado, com muita sensibilidade e certa leveza, que fez “Tangles”, dirigido por Leah Nelson, encantar a Croisette. Nessa adaptação do quadrinho homônimo, publicado por Sarah Leavitt em 2012, a doença devastadora não impede que o roteiro recorra à irreverência, até em alguns momentos dramáticos.
Quando Midge e sua família estão no consultório médico, o neurologista avisa que o diagnóstico da paciente não é 100% garantido. “O único jeito de termos certeza é fazendo a autópsia e, convenhamos, quando chegamos a esse ponto, já é tarde”, afirma ele, no tom mais racional possível. “Alzheimer é algo que me toca muito porque a minha avó morreu com a doença e a minha sogra está convivendo com ela no momento”, conta Louis-Dreyfus, explicando por que se interessou pelo projeto, que ajudou a produzir. “Tangles” é diferente de tudo o que ela já fez ao longo de mais de 40 anos de carreira no cinema e na TV. “Meu marido é o cuidador de sua mãe, e eu o apoio em tudo o que posso.
Somos dedicados à Doce Velhinha, como a chamamos, mas é muito desgastante. E nós temos recursos para isso”, diz a atriz, que chegou a ganhar US$ 600 mil por episódio de “Seinfeld”, entrando na lista dos astros e estrelas mais bem pagos da TV. Ainda sem data de lançamento no Brasil, “Tangles” está longe das grandes produções que projetaram Louis-Dreyfus mundialmente, mas segue a sua tendência recente de se associar a trabalhos mais reflexivos. Nos últimos anos, ela embarcou em filmes independentes que discutiam perda, luto, envelhecimento e outros temas ligados à vida depois dos 40, como “Verdades dolorosas” (2023) e “Tuesday - O último abraço” (2023). “Lidar com essas realidades no trabalho me ajuda a me reconciliar com elas na vida real. São questões da experiência humana que exigem um tipo de introspecção. Às vezes, isso é difícil, mas sempre me sinto elevada no final”, comenta a atriz.
E com a mesma sinceridade brutal de Elaine Benes, que sempre encontrava um jeito de expor o absurdo das situações em “Seinfeld”, Louis-Dreyfus também busca respostas no seu podcast. Em “Wiser Than Me” (Mais sábia do que eu), lançado em 2023, a comediante conversa, a cada semana, com uma mulher mais velha do que ela, explorando assuntos como autoaceitação, feminismo, menopausa, envelhecer no showbiz, casamento, sexualidade, maternidade, luto e outros. As conversas com Patti Smith, Annie Leibovitz, Jane Fonda, Glenn Close, Gloria Steinem, Isabella Rossellini, entre outras convidadas, sempre buscam desvendar a sabedoria que aparentemente só vem com a idade. E, ao final de cada sessão, a mãe de Louis-Dreyfus, Judith Bowles, de 92 anos, participa contando alguns segredos domésticos. Exemplo: quando mãe e filha decidiram, há poucos anos, fazer terapia para tratar do divórcio na família, quando Louis-Dreyfus ainda era bebê.
“A honestidade aqui foi um acidente”, diz a comediante, rindo. “Quando gravo o podcast, estou em casa, tranquila, sem necessariamente me dar conta de que aquela conversa sairá dali para o universo todo ouvir. Não digo que eu me arrependa disso. Como as conversas que tenho são muito íntimas, elas acabam exigindo um certo nível de intimidade da minha parte também”, completa. Na conversa com a modelo Beverly Johnson, de 73 anos, a primeira afro-americana a estampar a capa da Vogue, Louis-Dreyfus confessou que sorri de nervoso nos tapetes vermelhos, experiência pela qual passou novamente em Cannes. Antes da sessão de gala de “Tangles”, na Salle Agnès Varda, a atriz passou pelo pelotão de fotógrafos ao lado do casal Seth Rogen e Lauren Miller Rogen (ele, um dos dubladores, e ela, produtora da animação). “Tento parecer à vontade, mas meu monólogo interior está a mil por hora, dizendo: ‘me tirem daqui’.
Como não me sinto preparada para a tarefa, posso ficar obcecada com a minha aparência depois, o que é péssimo. Descobri que a minha expressão facial normal parece um pouco malvada. Quando sorrio, fico melhor. Então sorrio feito louca”, conta ela, no podcast.
Quanto à sua popularidade, Louis-Dreyfus não sabe dizer se é a mesma do passado. Sobretudo do auge de “Seinfeld’’, a “série sobre nada” que se tornou um dos sitcoms mais bem-sucedidos e influentes da história da TV. “Será que estou [fora do radar]?”, pergunta, acrescentando que prefere não dar importância a isso. “Continuo em busca de bons trabalhos, capazes de me desafiar artisticamente”, afirma a comediante, sempre “grata” por não ter construído a carreira com personagens calcadas na beleza. “Elaine era só bonitinha”, destaca ela.