O mal-estar dos investidores com a comunicação da decisão de política monetária, ontem, do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, provocou uma inclinação relevante da estrutura a termo da curva de juros futuros, com as taxas de médio e longo prazo em alta, ao passo que os vértices de curtíssimo prazo recuaram. O movimento reflete a expectativa por uma Selic mais baixa nos próximos meses, mas que deve ser compensada com um novo aperto monetário ao longo do tempo, tendência que indica uma desconfiança do mercado sobre a capacidade do Copom de perseguir a meta de inflação de 3%. Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento para janeiro de 2027 recuou de 14,30%, do ajuste de ontem, para 14,235%; a do DI de janeiro de 2028 aumentou de 14,56% a 14,70%; a do DI de janeiro de 2029 anotou forte alta de 14,595% para 14,765% e a do DI de janeiro de 2031 foi de 14,485% a 14,69%. Ontem, o BC optou por prosseguir com o ciclo de calibração da política monetária e cortou a Selic em 0,25 ponto, a 14,25%, o que não foi surpresa para o mercado.

A comunicação, porém, foi alvo de críticas. Para justificar a continuidade dos cortes mesmo com a deterioração recente do quadro inflacionário, o Copom apontou para uma simulação com um cenário alternativo para a taxa Selic em relação a do relatório Focus e que levaria a uma inflação abaixo de 3% no primeiro trimestre de 2028, que será o horizonte relevante do colegiado a partir da sua próxima reunião, em agosto. Ao alongar o horizonte relevante da decisão de ontem (quarto trimestre de 2027), os investidores especulam se o BC revelou uma preferência por prosseguir com os cortes independentemente do que os dados econômicos apontam. Nesse sentido, a função de reação e a própria credibilidade da autarquia é questionada.

Para Ian Lima, gestor de renda fixa ativa da Inter Asset, ainda é cedo para falar em perda de credibilidade pois o Copom terá uma oportunidade de corrigir os erros da comunicação de ontem na ata que será divulgada na próxima terça-feira. Ainda assim, ele optou por um “caminho exótico de forma deliberada”, o que justifica o incômodo dos agentes e a reação dos preços no mercado hoje. “Foi uma comunicação um pouco confusa, sim. Há dois textos no comunicado: uma primeira metade bastante conservadora, com descrições sobre a aceleração da atividade, piora da inflação e das expectativas, adição de um quarto risco de alta no balanço, e uma segunda metade em que ele explica porque cortou apesar disso tudo”, diz o gestor.

Para Lima, era mais adequado o Copom ter cortado mas sinalizado de forma mais explícita que poderia parar o ciclo de afrouxamento se o cenário não melhorar até a próxima reunião, em agosto. Ou então, caso quisesse adotar um cenário alternativo de Selic constante, poderia comunicar isso de forma mais clara e, pelo menos, indicar ao mercado que novos aumentos da Selic não serão necessários. No entanto, ao justificar a flexibilização dos juros por meio de um alongamento do horizonte, o BC fortalece a percepção de que a meta de inflação de 3% é “inatingível”, segundo Lima. “Agora, o mercado já precifica uma Selic de 15% na curva. Se o BC comunica sua decisão melhor, o comportamento do mercado seria outro e não teria esse questionamento [sobre a capacidade da meta ser atingida]. No limite, tudo é uma escolha e há o risco de manter a inflação desancorada por mais tempo”, alerta.

“Quando ele fala que vai acomodar a inflação em um horizonte mais longo, em alguma medida ele vai contra o regime de metas e tolera uma inflação mais alta.” Além da forte inclinação da curva, as medidas de inflação implícita do mercado extraídas das NTN-B (títulos públicos atrelados ao IPCA) também foram fortemente impactadas pelo comunicado do Copom. Com a confiança dos agentes abalada em relação à persecução da meta, a inflação implícita da NTN-B com vencimento em agosto de 2028 saltou de 5,34% para 5,49% hoje, ao passo em que a da NTN-B de agosto de 2030 disparou de 5,46% para 5,63%. Para Ian Lima, a própria comunicação do Copom na próxima semana, seja por meio da ata ou do Relatório de Política Monetária (RPM) do segundo trimestre, irá definir se a tendência negativa na qual o mercado embarcou hoje vai se estender ou se será revertida.