O jornalista Ariel Palacios fala como escreve: com erudição leve, humor afiado e ironia. Correspondente da GloboNews desde 1996, colaborador do SporTV, colunista da CBN e autor de “Futebol lado B” (Globo Livros, 312 págs., R$ 74,90), ele transita entre política, cultura e futebol com a elegância e a fluidez de meio-campistas de antigamente. “Eu sou um fanático pela história: ela está no topo das minhas paixões. Depois vem o resto: gastronomia, turismo, futebol. Aí tudo se mistura.” Os pais argentinos moravam no Brasil quando a mãe engravidou e quis voltar a Buenos Aires para dar à luz a ele em 1966.
Poucos meses depois, voltaram e viveram em São Paulo, Governador Valadares, em Minas Gerais, e Londrina, no Paraná. Palacios, prestes a completar 60 anos, mora em Buenos Aires há 30 anos. O sotaque singular, “segundo a teoria” de sua mãe, é o resultado da vivência nessas cidades e também em Curitiba e Madri. “Futebol lado B” nasceu após décadas de observações paralelas ao factual. “Ao longo destes anos como correspondente fui juntando coisas. Sempre tentei complementar o óbvio com algo diferente”, diz.
Palacios guardava tudo em pastas físicas: recortes, anotações e arquivos impressos. “Eu sou mais manual. Prefiro imprimir, recortar e anotar.” O livro mistura antropologia, história, linguística, política, religião, gastronomia e cultura pop. “Eu tento pensar fora da casinha.
Foi assim que surgiram capítulos sobre a Igreja Maradoniana, leis contra a feitiçaria no futebol, escritores ‘copalovers’ e ‘copafóbicos’. Não é um catálogo de curiosidades. É uma visão ampla, holística do futebol.” A linguagem da bola, diz, revela identidades nacionais.
“Os argentinos têm rivalidade poligâmica. O Brasil é monogâmico”, brinca. Palacios explica por que a Argentina tem uma rivalidade maior com a Inglaterra do que com o Brasil. “Na Guerra das Malvinas, houve depredação de escolas de inglês, bares mudaram de nome por aqui. Mas os times mantiveram os nomes: River Plate, [Club Atlético] Banfield, [Vélez] Sarsfield. O futebol está em outro universo”. Para Palacios, no livro, a frase do sociólogo Pablo Alabarces (“Brasileiros amam odiar os argentinos, e argentinos odeiam amar o Brasil”) descreve apenas parte do fenômeno.
Apesar de episódios recentes de racismo nos estádios e o de uma turista argentina presa no Brasil, Palacios diz se tratar de casos isolados. Prova disso seria a recepção calorosa a Neymar por parte da torcida do San Lorenzo, em Buenos Aires, antes e durante a partida contra o Santos na Copa Sul-Americana em abril. Conhecido por manchetes provocativas e um humor que frequentemente ultrapassava limites, incluindo insinuações e estereótipos que alimentavam hostilidades contra brasileiros nos anos 1990 e em parte dos anos 2000, o diário Olé era um dos principais símbolos dessa rivalidade. “O jornal mudou muito a linha editorial e, mesmo naquela época, o Olé não representava a totalidade da população, porque, se fosse um sucesso, venderia 1 milhão de exemplares por dia. Mas eles não passavam dos 60 mil.”
Além das rivalidades, o livro traz episódios que revelam como o futebol atravessa fronteiras. Um dos mais surpreendentes é a trégua de Natal de 1914, quando soldados ingleses e alemães interromperam a Primeira Guerra para conversar e disputar peladas. A fama de “pé-frio” do vocalista britânico Mick Jagger também é contada no livro. Ela começou em 1998, quando na Copa da França o cantor dos Rolling Stones assistiu ao vivo à derrota da Inglaterra para a Argentina nos pênaltis.
À época namorado da brasileira Luciana Gimenez, Jagger foi assistir à final entre França e Brasil, que perdeu por 3 a 0 no dia da convulsão de Ronaldo. Na Copa de 2010, viu “in loco” a seleção de Dunga, com direito à expulsão do meio-campista Felipe Melo após pisar em um adversário, ser eliminada pela Holanda por 2 a 1. E como se não bastasse, em 2014 Jagger estava presente no fatídico jogo do 7 a 1 entre Brasil e Alemanha no Mineirão. Muito da irreverência nos textos de Palacios vem das leituras iniciadas na infância e adolescência.
“Sempre me agradaram os escritores com um tom levemente irônico. E também sou muito cético com o mundo, com políticos, com sacerdotes. Acho que tenho essa pitada meio ácrata, meio cética.” O seu estilo foi reconhecido ainda na universidade, quando um professor encontrou suas anotações sobre a mesa e decidiu publicá-las no jornal dos alunos. “Ele disse: ‘Você encontrou o seu estilo. Nunca se deixe contaminar pelos outros’.” Palacios segue esse conselho até hoje.
“Eu tento escrever mais ou menos do jeito que eu falo com a família ou com os amigos. Não é informal, mas é natural. E prezo muito a riqueza do idioma.” O futebol, para ele, é uma “caixinha de surpresas” apenas para quem olha de longe. De perto, é um sistema complexo de identidades, tensões, memórias e afetos. “Eu tento mostrar o futebol como algo muito maior do que o jogo. O lado B é parte essencial da alma do esporte.”
Ao ser questionado sobre uma citação no livro do ex-técnico argentino César Luis Menotti (“Aquele que só sabe de futebol nem de futebol sabe”), Palacios afirma que o esporte é um espelho da humanidade. E lamenta não ter usado a frase como subtítulo do seu livro. “O futebol revela nossas paixões, nossos delírios, nossas contradições.”