Atentos à demanda sazonal da Copa do Mundo 2026 do mundial de futebol, parte dos fabricantes de televisão vem segurando o repasse do aumento nos preços de chips de memória, além de promover aparelhos lançados em 2025. Pesquisa da NielsenIQ mostra que a média de preços dos dez aparelhos de TV mais vendidos no varejo brasileiro caiu 4% entre a primeira semana de abril e a segunda semana de maio. Entre os dez aparelhos mais vendidos, três não são lançamentos. No período analisado, estas TVs que não são novidades no mercado apresentaram queda de 17% nos preços.

A torcida da indústria é para que a seleção brasileira tenha bom desempenho, para “esticar” a temporada de vendas no primeiro semestre. A Copa do Mundo tem início em 11 de junho e vai até 19 de julho, com jogos no México, no Canadá e nos Estados Unidos. “Quanto mais a seleção brasileira progride na competição, mais chances de esticar as vendas de TVs”, afirma o líder de tecnologia e duráveis para NielsenIQ, Mateus Bando, ao Valor. De abril a junho deste ano, período de maior demanda por TVs para o mundial de futebol, a NielsenIQ estima que as vendas de aparelhos cresçam de 10% a 15% em relação aos mesmos três meses de 2025.

Dependendo do avanço da seleção, em um cenário mais otimista, as vendas podem crescer 20%, informa Bando. Em 2025, as vendas no varejo cresceram 6,5% ante 2024, segundo a NielsenIQ. A demanda dos torcedores por telas maiores e aparelhos mais conectados para a Copa esbarra em um cenário de juros elevados e crédito mais caro. “O mercado opera hoje em um nível de vendas superior ao do início da década e oferece um portfólio amplo de smart TVs [aparelhos inteligentes]. A decisão de compra, no entanto, depende sempre do orçamento e das preferências de cada família”, diz o presidente executivo da Associação Nacional de Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos (Eletros), Jorge Nascimento.

Os dados da Eletros mostram que, de 2010 a 2025, as vendas de televisores acompanharam os ciclos da Copa do Mundo (ver o infográfico). A exceção foi a Copa do Catar, realizada em novembro de 2022. “O mercado ficou praticamente estável [em 2022], com leve alta de 0,5%, em parte porque a pandemia [em 2020] antecipou a troca de aparelhos e porque o torneio ocorreu no segundo semestre, muito próximo da Black Friday e do Natal”, afirma Nascimento. Este ano, a Eletros mantém a projeção de 14,7 milhões de aparelhos vendidos, um aumento de 5% nas vendas em relação a 2025, conforme informou o Valor em fevereiro.

No ano passado, o mercado cresceu 3%. A queda do dólar ajudou fabricantes a segurar o repasse dos custos de chips de memória e adiar o reajuste para o segundo semestre. Por outro lado, o mercado já sente o impacto do fechamento do Estreito de Ormuz, em virtude do conflito no Oriente Médio, nos custos de frete, obserBando, da NielsenIQ. “Os fabricantes conseguem diluir o aumento de custos em TVs com telas grandes, a partir de 65 polegadas, que são os modelos mais procurados pelos consumidores para esta Copa”, ele afirma.

O ganho de escala das telas, nos últimos anos, favoreceu a queda de preços de TVs maiores, informa a NielsenIQ. Entre a Copa de 2018 e a atual, uma TV de mais de 70 polegadas teve seu preço médio reduzido de R$ 10.700 para R$ 5.900. “O consumidor encontra preços 10% menores em alguns tamanhos de telas grandes de 65 polegadas para cima”, afirma o gerente sênior de produto da TCL Semp no Brasil, Nikolas Corbacho. Na LG Electronics, “as vendas de aparelhos de 75 polegadas ou mais cresceram 94% no primeiro trimestre de 2026 versus 2025”, afirma o vice-presidente de vendas da empresa sul-coreana no Brasil, Rodrigo Fiani. A conterrânea Samsung informa que os modelos com telas acima de 65 polegadas já representam quase um quarto do mercado total de TVs em valor e 34% do faturamento da empresa na categoria de telas grandes.

Considerando a alta penetração de televisores no país, “o mercado se baseia em ciclos de troca constantes de tecnologia e a Copa é o momento em que o consumidor faz isso”, nota o diretor de marketing e produtos da chinesa Hisense no Brasil, Matheus Benatti. Em 2024, a TV estava presente em 93,9% dos 80,1 milhões de domicílios particulares permanentes do país, segundo os dados mais recentes do IBGE. Depois da Copa, os reajustes serão inevitáveis, afirmam os fabricantes. “O custo de memória começou a chegar, mas a gente ainda tem um fôlego com dólar”, diz Benatti, da Hisense.

No segundo semestre, a expectativa é de pelo menos 10% de reajuste, informa o executivo. Corbacho, da TCL Semp, nota que já houve reajustes de 5% a 8% nos preços médios atuais do mercado em relação ao fim do ano passado, quando teve início a escala global de preços de chips de memória. A estratégia da marca chinesa foi concentrar os lançamentos no segundo semestre. “No produto novo, você não consegue preços mais agressivos”, explica o executivo.

Até o momento, segundo Fiani, a LG conseguiu segurar o repasse de custos de componentes, incluindo chips de memória, ao consumidor. “Temos trabalhado com uma combinação de eficiência operacional, gestão de portfólio e estratégias comerciais para mitigar impactos relevantes e, com isso, conseguimos manter um preço competitivo neste período”, diz. Em TVs com telas menores, o consumidor não deve esperar promoções atrativas. “Os custos sobre componentes, especialmente memórias, gerou uma necessidade de reajuste de 28% para TVs de 32 e 43 polegadas e de 19% para modelos de telas maiores”, informa o cofundador do Grupo MK, que detém a marca Aiwa Brasil, Giovanni M. Cardoso.

A empresa dividiu os reajustes entre abril e maio. A Copa costuma inverter a sazonalidade de vendas “fazendo com que o primeiro semestre passe a concentrar cerca de 50% do faturamento anual da categoria, uma proporção que costuma ficar em até 45% em anos sem o evento, quando o peso se desloca para a Black Friday”, observa o gerente de produtos de TV da Samsung Brasil, Alexandre GlebGleb, citando dados da NielsenIQ. “O período que antecede o início dos jogos, consolidado como o pico de faturamento da categoria no ano, estabelece o momento atual como a janela ideal para o consumidor efetivar sua compra, aproveitando as ofertas e a disponibilidade do portfólio completo no varejo”, diz Gleb.