Zeca Veloso estreia o show 'Boas novas' no Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro (RJ), na abertura do Queremos! Festival!
Data e local: 4 de abril de 2026 no Queremos! Festival! no Teatro Carlos Gomes (Rio de Janeiro, RJ)
♬ Para um artista a quem se atribui certa timidez, até que Zeca Veloso esteve bem solto na estreia do show “Boas novas” na abertura da sétima edição do Queremos! Festival! na noite de ontem, 4 de abril.
Diante de plateia que incluía convidados que (também) estavam ali para afagar a família Veloso, o cantor, compositor e músico carioca fez gestos que, se não chegaram a configurar uma teatralidade na cena, deram charme e dinâmica à apresentação que lotou o Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro (RJ).
Entre o tira-e-bota da jaqueta (e dos óculos) e movimentações pelo palco, Zeca criou até bordão – “Pode ir, Lucão”, deixa para o guitarrista e diretor musical Lucca Noacco começar a tocar o arranjo de cada música – e reiterou o talento (mais evidenciado no canto e na composição do que no toque do violão e do piano) ao seguir roteiro que entremeou músicas do recém-lançado primeiro álbum do artista, “Boas novas” (2025), com composições de lavras alheias.
Filho de Caetano Veloso, Zeca celebrou a dinastia logo no número inicial ao cantar música do pai, “Peter Gast” (1983), com o violão e o falsete que há nove anos encantou o público do coletivo show “Ofertório” (2017) quando o cantor solava a canção autoral “Todo homem” (2017).
A junção de Zeca com o pai e com os irmãos Moreno Veloso e Tom Veloso no show do clã foi o estopim para o início de carreira solo que ganhou impulso a partir de dezembro de 2023, quando Zeca começou a se apresentar em casas de pequeno porte do Rio de Janeiro (RJ) e São Paulo (SP), testando ao vivo o repertório autoral do álbum gestado desde 2018 e enfim lançado em novembro de 2025.
Marco na trajetória do artista, o show de abertura do Queremos! Festival! foi o primeiro feito por Zeca com uma big banda formada por músicos do naipe de Antonio Dal Bó (teclados), Diogo Gomes (trompete), Giordano Gasperin (baixo) e Thomas Arres (bateria), além do supracitado guitarrista Lucca Noacco.
Zeca Veloso se mostra mais solto na cena do show 'Boas novas' com gestos e movimentações pelo palco
Sem essa banda, Zeca Veloso não teria conseguido reproduzir no palco o suingue de músicas autorais como a baiana “Salvador” – composição que já se insinua com o hit entre os ouvintes do álbum “Boas novas”– e a carioca “Máquina do Rio”, pop-funk-samba criado para evocar a pulsação dos arranjos de Lincoln Olivetti (1954 – 2015), mago dos teclados que teve tema funky da parceria com o guitarrista Robson Jorge (1954 – 1993), “Aleluia” (1982), cantado por Zeca na apresentação da banda.
No show, “Máquina do Rio” entrou em ação com o rap de Xamã, convidado (não anunciado) da apresentação. Também sem aviso prévio, Dora Morelenbaum apareceu (brevemente) no palco do Teatro Carlos Gomes para reproduzir em cena o feat no disco de Zeca na música “A carta”.
Tal como no álbum “Boas novas”, a balada bilíngue “Carolina” (Zeca Veloso, Sylvio Fraga e Tadeu Bijos, 2025) sobressaiu no roteiro pela aura sacra do arranjo e pelo canto com alma de Zeca Veloso. Contudo, o cantor soube ir muito além do disco ao montar o roteiro do show.
Sambas de Noel Rosa (1910 – 1937), Paulo Vanzolini (1924 – 2013), Tim Maia (1942 – 1998) e Tom Jobim (1927 – 1994) apareceram no roteiro. De Noel, o cantor reviveu “Não tem tradução” (1933) logo após cantar a balada “Desenho de animação” em sagaz diálogo temático entre as duas músicas separadas por quase um século, mas unidas pelas letras que versam sobre cinema, línguas e paixões dubladas.
De Antonio Carlos Jobim, a escolha foi pela música mais conhecida da parceria de Tom com Vinicius de Moraes (1913 – 1980), “Garota de Ipanema” (1962), samba cheio de bossa carioca, linkado no roteiro com o balanço de “Máquina do Rio” e cantado por Zeca com reverência à soberania de Jobim e com alguns versos em inglês.
O samba foi recorrente em roteiro que abarcou o samba-soul de Tim Maia – “Réu confesso” (1973), com arranjo evocativo do balanço da banda Vitória Régia, mas divisão própria no canto de Zeca – e o samba-superação de Paulo Vanzolini “Volta por cima” (1962), escolha inusitada para um artista que ainda aprende a exteriorizar o canto em cena.
Curiosamente, o samba da lavra própria de Zeca, “O sal desse chão” (2025), composto com Xande de Pilares, ainda tem que ser mais azeitado em cena para bisar no show o tom majestoso do registro fonográfico do álbum “Boas novas”. Da mesma forma, o canto de “O sopro do fole” (2021) – obra-prima do cancioneiro autoral de Zeca – se ressentiu da comparação com a dimensão inalcançável do canto de Maria Bethânia na gravação original da música, feita pela intérprete para o álbum “Noturno” (2021).
Em contrapartida, a canção “Colors of the wind” (Alan Menken e Stephen Schwartz) – tema da trilha sonora do longa de animação “Pocahontas” (1995), apresentado na voz da cantora e atriz norte-americana Judy Kuhn – caiu bem na voz de Zeca Veloso, intérprete expressivo de temas que pedem um canto mais emotivo, com a alma que uns têm e outros não têm. Detalhe: “Colors of the wind” precedeu a canção “Desenho de animação” no roteiro, em outro link sagaz.
Entre tensões naturais de toda estreia e o canto (meio improvisado) ao piano da balada “Amor, meu grande amor” (Angela Ro Ro e Ana Terra, 1979), herança do roteiro do primeiro show solo do artista em dezembro de 2023, o cantor se expandiu na cena sedutora do show “Boas novas”, a ponto de, no arremate do bis, ter convocado a plateia para subir ao palco para reviver com ele a música “Salvador”.
Zeca Veloso está mais solto em cena, mas ainda é pelo canto em falsete que o artista prende mais a atenção da plateia.
Zeca Veloso canta no show 'Boas novas' a canção 'Colors of the wind', música-tema do desenho 'Pocahontas' (1995)
♪ Eis o roteiro seguido em 4 de abril de 2026 por Zeca Veloso na estreia do show “Boas novas” na abertura do Queremos! Festival! no Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro (RJ):
5. “A carta” (Zeca Veloso, 2025) – com Dora Morelenbaum
7. “Carolina” (Zeca Veloso, Sylvio Fraga e Tadeu Bijos, 2025)
8. “Máquina do Rio” (Zeca Veloso, 2025) – com Xamã
9. “Garota de Ipanema” (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1962)
10. “Colors of the wind” (Alan Menken e Stephen Schwartz, 1995)
15. “Aleluia” (Lincoln Olivetti e Robson Jorge, 1982)
17. “O sal desse chão” (Zeca Veloso e Xande de Pilares, 2017)
18. “Amor, meu grande amor” (Angela Ro Ro e Ana Terra, 1979) – com citação de “Maria Maria” (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1976)
19. “Salvador” (Zeca Veloso 2025) – com a plateia no palco
P.S.: A canção “Tua voz” (Zeca Veloso, 2025) estava prevista para ser cantada no bis, mas não foi efetivamente apresentada no roteiro na estreia do show “Boas novas”.