
Nuno Leal Maia relembra como foi ser técnico do Londrina enquanto era ator de novela Em janeiro de 1996, o Londrina anunciou um treinador que tinha no currículo várias novelas, filmes e peças de teatro. O escolhido foi o ator Nuno Leal Maia, um dos ícones da TV e que teve no Tubarão mais um capítulo de uma curta e movimentada carreira no futebol. – Tinha muita gente que tinha preconceito, claro. Um ator dirigindo o time. Era meio estranho para a cabeça das pessoas entender isso – disse Nuno, em entrevista ao ge. Como ator, Nuno foi dono de personagens marcantes, como o professor Fábio (A Gata Comeu), o bicheiro Tony Carrado (Mandala), o surfista Gaspar Kundera (Top Model) e o professor Pasqualete (Malhação), entre tantos outros vividos na TV, no cinema e no teatro. Só que Nuno Leal Maia também teve uma história ligada ao futebol. Ele tentou ser jogador no juvenil do Santos, o clube do coração, mas optou por seguir a carreira como ator. Voltou a vestir a camisa do Peixe, só que na ficção, vivendo Bertazzo, em Vereda Tropical. Porém, o futebol atraiu Nuno mais uma vez, só que na vida real. Dono do Londrina tem rede multiclubes e vê Mirassol como exemplo a seguir Entre os anos de 1980 e 1990, ele participou ativamente do time dos artistas, que reunia atores e também ex-jogadores, como Félix e Paulo Cezar Caju, ambos do tri em 70, além de Adílio e Andrade, ídolos do Flamengo. Nuno jogava no meio-campo, como cabeça de área, e a partir dali surgiu a ponte para virar treinador. – Fui até o juvenil no Santos, depois optei pelo teatro, a televisão, mas continuei jogando. Naquela época estava com o time dos artistas no auge, com todos aqueles másters do futebol profissional. Eu jogava com o Paulo César no meio e comandava o time. Eles tinham mais ou menos um respeito de treinador. Não era o treinador, mas a gente fazia como se fosse – contou. Luxemburgo no Paraná Clube? Há 30 anos, técnico surpreendeu ao ir para time novato A carreira de treinador O primeiro desafio em campo foi no comando do São Cristovão, em 1993, com a benção de Carlos Alberto Parreira, o técnico do tetra, na chegada. – Aí começou a história do São Cristovão, “todo mundo quer você lá”, o Parreira foi lá, aquela coisa toda. Fizeram um auê para dar um upgrade para o São Cristovão, na época. Mas, o São Cristovão não tinha interesse, foi mais coisa de badalação, de promoção – disse. – Em duas semanas eu estava montando um time, sumiram os jogadores, o Vasco pegava todo mundo, porque o Vasco é ali do lado, o São Cristovão era uma barriga de aluguel do Vasco, mais ou menos. Aí levavam os jogadores, e eu ficava sem nada – completou. Em 1993, ator Nuno Leal Maia é o novo técnico do São Cristóvão Depois, em 1994, Nuno foi para o Botafogo-PB, mas deixou o clube na reta final do Paraibano daquele ano, após um desentendimento com um dirigente por conta da escalação do time. – Consegui fazer um trabalho mais interessante, era uma coisa mais profissional. Tive um desentendimento com o diretor de futebol, ele queria escalar um jogador que precisava negociar, e o jogador tinha saído da concentração e ido para uma micareta, festa tradicional lá em Campina Grande – lembrou. – Falei que ele não ia jogar, que disciplinarmente estava fora dos meus planos, porque ele estava mais preocupado em sambar do que jogar. Aí o diretor disse que tem que vender, que não sei o quê, e falei: “você escala o time, então”. Pedi para sair e não quis mais me meter – prosseguiu. No Londrina, com "Saci-Pererê" de auxiliar No fim de 1995, o Londrina teve a eleição para um novo presidente, Marcelo Caldarelli, que assumiu um clube com muitas dívidas. Na montagem do time, a escolha do novo treinador passou pelo patrocinador máster, uma empresa que atuava como agência de modelos. Nuno Leal Maia foi o escolhido, em uma estratégia de marketing. – A diretoria naquele momento entendeu que o Londrina precisaria de visibilidade em termos nacionais. Contratar o Nuno seria um chamariz para a mídia divulgar o Londrina pelo nome dele – detalhou Abílio Bezerra, supervisor de futebol do clube na época. Nuno ainda estava gravando o final da novela Histórias de Amor, de Manuel Carlos, onde vivia o personagem Edgar. Com isso, em parte da semana ele era ator e na outra era treinador. – Todo mundo falava “treinador por telefone”, é evidente que não dava para treinar time algum por telefone. A gente estava querendo fazer um trabalho sério, só que encontrava muita resistência, principalmente da parte física – disse Nuno. – Os jogadores gostavam muito de mim, a resistência era mais era da parte física [da comissão técnica]. Eu não tinha equipe, era eu, o Romeu [Evaristo e o Marcelo Caldarelli. O resto era o pessoal que eles colocavam lá e já era um grupo que iria jogar da maneira deles, que iria treinar e participar da maneira conservadora que eles tinham da visão deles do futebol. Nuno Leal Maia ao lado de Romeu Evaristo no Londrina CEDOC/RPC No Londrina, Nuno teve como auxiliar outro ator, Romeu Evaristo, que ficou conhecido pelo papel de Saci-Pererê no Sítio do Pica Pau Amarelo. Uma dupla que surpreendeu até os jogadores mais experientes do elenco. – A hora que chegou o Nuno e o "Saci", eu falei: "o Saci tem as duas pernas, como que pode?". Eu era pequeno e via o Sitio do Pica Pau Amarelo, ele tinha uma perna só, aí o cara chegou com as duas pernas. Os caras riram, foi engraçado. Nunca esperei ser treinado pelo Nuno Leal Maia e pelo Saci. Foi muito diferente – lembrou o ex-zagueiro João Neves. – Nossa relação foi boa. Muitas vezes o Romeu ajudava, mas chegava até a atrapalhar. Ele ficou meio aborrecido comigo, mas é a verdade. Ele crescia tanto, queria se sobressair e ficava atrapalhando. A gente tinha que ter tido conversas mais firmes para equalizar essa coisa. Apesar de todos esses problemas, eu respeito muito o Romeu – comentou Nuno. Fãs e torcedores O fato de ter um ator como treinador movimentou a cidade. Os jogos do Londrina em casa e até mesmo os treinos contavam com a presença em peso dos torcedores, variando entre fãs do ator e críticos do treinador. – Os hotéis sempre cercados de pessoas que queriam ver o Nuno, pegar um autógrafo. Isso trazia um aspecto diferente, de alegria. Era o galã da Globo – recordou Abílio Bezerra. Nuno Leal Maia saúda a torcida do Londrina em 1996 CEDOC/RPC – As fãs ficavam ali, a gente sempre dava muita atenção. Tem que dar, a gente foi educado assim no meio artístico. Na hora do jogo ficava aquele poleiro atrás de mim, gente xingando e reclamando. No VGD principalmente, era difícil administrar. Tinha que ter paciência – comentou Nuno. – Teve um jogo que a gente ganhou de 1 a 0, no último minuto, e foi uma pressão enorme. Todo mundo perturbando a cabeça. No final, um gol que saiu pela direita, eu desabafei: “está vendo, fica quieto porque não acabou, espera acabar para ver o resultado”. Pressionavam não por ser ator, pressionavam por ser treinador. Qualquer treinador ali seria pressionado – destacou. Futebol-Arte Como treinador, Nuno pregava o gosto por um “futebol arte”, baseado nos gloriosos tempos do Santos e também da seleção de 1970, comandada por Zagallo. Algo que ele acredita que é possível, mas exige tempo, trabalho e compreensão. – É como se você tivesse que ensaiar um balé de teatro, uma peça de teatro. Você tem que trabalhar exaustivamente para conseguir o resultado bacana para o espectador. O futebol arte, hoje também existem jogadores que conseguem fazer isso – disse. Nuno Leal Maia fala da paixão pelo futebol e diz que virou ator por acaso A passagem de Nuno pelo Londrina foi curta, durou apenas nove jogos, mas teve bons resultados, com cinco vitórias, três empates e apenas uma derrota. O time ficou as primeiras sete partidas sem perder, um início de competição do clube que só foi igualado agora, 30 anos depois, com a campanha que vem sendo feita em 2026. – Fizemos um trabalho bem interessante no Londrina. Nós perdemos para disputar a final [de um dos turnos, que rendia ponto-extra na fase decisiva]. Empatamos com o Athletico, que era treinado pelo Leão e tinha Paulo Rink, Oséas, Matosas, um time muito forte. – Todo mundo achou que o Nuno ia chegar e ia ser uma palhaçada. Mas não foi assim. O cara foi ali firme, juntou, era um cara inteligente, sabia onde mexer, como conversar. Ele não estava encenando, não, estava na vida real mesmo – destacou João Neves. Nuno Leal Maia no Londrina, em 1996 CEDOC/RPC Últimos atos como treinador Porém, o principal patrocinador, responsável pela contratação de Nuno, entrou em desacordo com o Londrina e deixou o clube. Com isso, o Tubarão não tinha condições de manter os custos do ator/treinador, que acabou sendo dispensado. – A empresa saindo, o Nuno também saiu, porque o Londrina não tinha como pagar os salários. Um novo treinador não seria tão caro quanto o custo de manter o Nuno, pelos salários e também por outros gastos, como passagens de avião. O Londrina não tinha dinheiro para isso – detalhou Abílio Bezerra, ex-supervisor. – Foi uma pressão grande que eu sofri no Londrina depois do empate e da não classificação. Eu tive que me afastar uns dias para ir até Portugal, para um prêmio que eu tinha ganho. Eu ia e voltava. O pessoal ficou meio chateado que não classificou, começou a pressionar, o Marcelo se aborreceu, e a gente parou – disse Nuno Leal Maia. Com a saída de Nuno e com um novo treinador, o Londrina desandou no Paranaense, ficou longe das boas exibições e acabou apenas na oitava posição. – O Londrina, a partir da saída do Nuno foi um desastre. a equipe foi mal, alguns jogadores terminaram saindo, teve problemas de contusão. Desagregou – resumiu Abílio Bezerra. – A gente não esperava, foi bastante triste [a saída]. Um cara que fez uma amizade muito grande, não só com os jogadores, mas com o pessoal da cidade, era bem quisto em qualquer lugar que chegava – contou João Neves. Nuno Leal Maia no Londrina, em 1996 CEDOC/RPC Depois do Tubarão, Nuno ainda voltou para a cidade naquele mesmo ano para ser técnico do Matsubara, que disputava a Série C do Brasileiro. A passagem foi curta e acabou sendo o último ato do ator como treinador. – Depois do Matsubara, eu me decepcionei muito, foi uma coisa que não esperava, esperava que ia trabalhar um pouco mais. Quanto mais você conseguia botar para cima, eles colocavam para baixo. Ficar enxugando gelo é difícil, lutar contra a maré forte, não adianta, melhor deixar te levar para um lugar mais favorável. Depois do Matsubara, eu pensei: vou ficar na minha de ator que é melhor, que eu trabalho comigo mesmo, sozinho, eu mesmo me comando. "A vida vale a pena" A história de Nuno Leal Maia como treinador foi digna de novela, ainda que com um roteiro que não teve o final feliz esperado. Hoje, aos 77 anos, o ator vive em Santos e segue de olho no futebol, acompanhando inclusive a volta do Londrina à Série B do Brasileiro. Sobre a carreira nos gramados, ele tira o lado bom daqueles momentos, mesmo que encarando um enredo com muitos percalços. – Eles achavam que não dava para fazer as duas coisas, que a pessoa tem que fazer uma coisa só na vida. Eu, como ator, discordo totalmente, represento vários personagens que fazem várias coisas diferentes. Para mim não é difícil fazer isso. Claro que vou atacar nas coisas que vou dar certo. Eu gosto de cinema, de futebol, eu entendo e acredito que vá dar certo. Mas as pessoas acham que não, ou faz isso ou faz aquilo – comentou. – Viver em Londrina foi uma época muito gostosa. Foi uma experiência que conto como positiva ao meu favor. Mesmo ela sendo negativa, tudo vale a pena. O que vale a pena é viver, tentando fazer o bem, construir positivamente as coisas, fazer que o mundo fique melhor através do bem. Só através disso você consegue uma boa performance do que vai fazer. A vida é que vale a pena – encerrou. Mais notícias do esporte paranaense no ge.globo/pr