A lua de mel legislativa de Ibaneis Rocha (MDB) acabou. Desde que assumiu o Governo do Distrito Federal (GDF) em 2019, o governador operou a Câmara Legislativa (CLDF) com a facilidade de quem conduz um trator em pista livre. Agora, diante da urgência de aprovar um socorro vital para o Banco de Brasília (BRB), o motor engasgou. O bloqueio principal não vem da oposição de PT e PSOL, mas de sua própria trincheira.
A proposta do GDF é ousada e controversa: ceder 12 terrenos públicos como garantia para viabilizar a injeção de liquidez no banco estatal. O movimento tenta cobrir a cratera de R$ 2,6 bilhões exigida pelo Banco Central como provisionamento. Esse é o preço do desastre gerado pela compra de R$ 12 bilhões em carteiras de crédito sem lastro do Banco Master, instituição de Daniel Vorcaro que foi liquidada em novembro.
Aqui entra a análise da GokaNews: este não é um mero ajuste contábil. É a transferência direta de patrimônio público para tapar o ralo de uma gestão financeira, no mínimo, temerária. E os deputados distritais da base sabem que assinar esse cheque em ano eleitoral é flertar com o suicídio político nas urnas.
Em 2025, essa mesma base aliada aprovou a toque de caixa a autorização para os negócios com o Banco Master. Quando a bomba estourou, o eleitorado apresentou a fatura. O receio de repetir o vexame político é o que motiva a atual rebelião silenciosa. A narrativa governista perdeu tração, e os deputados se recusam a ser, novamente, os fiadores de um desastre institucional.
Contudo, a política em Brasília raramente se move apenas por pudor fiscal ou responsabilidade pública. Nos bastidores da CLDF, o atraso na votação tem outro nome: barganha. Aliados de primeira hora já admitem, sob a proteção do anonimato, que a liberação de cargos, emendas e o apadrinhamento de cabos eleitorais serão o verdadeiro fiel da balança. O socorro ao BRB vai custar caro aos cofres públicos e, politicamente, ao caixa de favores do GDF.
O episódio serve como um estudo de caso sombrio sobre a governança de bancos estatais no Brasil. Quando o controle político se sobrepõe ao rigor técnico, a fatura fatalmente deságua no legislativo, onde soluções de emergência são fatiadas e negociadas no varejo.
Há, no entanto, um escudo leal. O presidente da CLDF, Wellington Luiz (MDB), atua como o principal operador de Ibaneis. Após engavetar quatro pedidos de impeachment em sequência, ele agora tem a complexa missão de domar os aliados insatisfeitos até a próxima terça-feira (24), data-limite fixada pelo governo para tentar estancar o desgaste.
O que está em jogo na próxima semana transcende o balanço do BRB. A votação no plenário irá medir o grau de deterioração do capital político de Ibaneis Rocha e definir quem, no fim das contas, pagará pela farra do crédito sem lastro: se o governo, a base aliada ou, como é de praxe, o contribuinte.