Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril. Falecido neste sábado (23), aos 22 anos, o fisiculturista Gabriel Ganley compartilhava com mais de 1,5 milhão de seguidores nas redes sociais sua rotina de uso de hormônios anabolizantes e de insulina para fins estéticos. Em vídeos publicados, ele chegou a mostrar que passava mal após injetar a medicação, peça-chave no tratamento do diabetes. Como efeitos colaterais, a insulina pode causar náuseas, fraqueza e hipoglicemia (queda severa dos níveis de açúcar na circulação sanguínea), que pode ser potencialmente fatal.
O uso abusivo da substância é relativamente comum no mundo do fisiculturismo. A seguir, entenda qual é a função deste hormônio, por que ele é usado neste contexto e quais são seus riscos quando utilizado sem indicação médica. A insulina é um hormônio produzido pelas células beta do pâncreas — órgão que trabalha tanto no processamento de alimentos quanto na liberação de determinados hormônios no organismo. Entre suas diversas funções, ela atua principalmente na regulação da glicose no sangue, sinalizando às células o momento de absorver o açúcar (glicose) em circulação.
Com isso, a glicose é usada para gerar energia e não se torna uma pedra no sapato da circulação sanguínea, já que o seu acúmulo pode causar diversos problemas de saúde. Ocorre que, em pessoas com diabetes, o organismo não produz insulina suficiente ou não consegue utiliza-la direito, gerando altas concentrações da glicose. É aí que entra a versão sintética da substância, um medicamento injetável que representa, para muitos pacientes com a condição, uma questão de sobrevivência. Fora do consultório médico, porém, a insulina têm sido usada para outros propósitos.
Nos bastidores das academias e nas competições de fisiculturismo, desde a década de 90, ela passou a ser usada por quem busca ganhos musculares acelerados. “Justamente por seu mecanismo de ação no transporte de nutrientes, a insulina é desviada de seu propósito terapêutico e usada no mundo do fisiculturismo“, explicam, em carta conjunta, os endocrinologistas Renato Redorat e Flavio Pirozzi, da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD). “Seu uso indevido visa forçar o corpo a um estado de anabolismo extremo“, adiantam os médicos. Uma pesquisa feita por estudiosos da Universidade de Trieste, na Itália, avaliou o uso de anabolizantes entre 92 fisiculturistas homens e, no estudo, 43% deles afirmaram fazer uso regular de hormônios.
No estudo, 95% declararam usar anabolizantes androgênicos (derivados da testosterona), 30% hormônio do crescimento (GH) e 38% insulina. Segundo atestado de óbito, a morte súbita de Gabriel foi provocada por um quadro de cardiomiopatia hipertrófica. A condição é caracterizada pelo aumento do tamanho do coração e pode ser causada ou agravada pelo uso de esteroides anabolizantes (o que não inclui a insulina). Até a divulgação dos laudos médicos, porém, acreditava-se que o jovem teria sido vítima de uma hipoglicemia grave.
A insulina tem ação anabolizante. Ou seja, ela acelera o anabolismo, o conjunto de processos em que o corpo constrói tecidos, como os músculos, e armazena energia. Em primeiro lugar, isso acontece porque ela ajuda o corpo a levar glicose e nutrientes para dentro das células, inclusive as musculares. Por isso, alguns fisiculturistas acreditam que ela pode acelerar a recuperação e favorecer o ganho de massa magra.
A insulina também ajuda os músculos a absorver aminoácidos — componentes usados na construção das fibras musculares — e também diminui a degradação dessas estruturas. Isso favorece o efeito anabólico. “Quando injetada, ela age nos receptores das células musculares para que a glicose e os aminoácidos, ingeridos em grandes quantidades, entrem rapidamente nas células, servindo como substrato energético”, explicam Redorat e Pirozzi. Mais uma função, principalmente usada entre os atletas da categoria “open” – onde o objetivo é ficar cada vez maior, sem limite de peso – é contrabalancear a ação do hormônio do crescimento, o GH, outro elemento comum nos protocolos. “O GH desrregula o metabolismo da glicose e pode levar à hiperglicemia, então muitos utilizam para evitar isso”, explica o ortopedista Carlos Eduardo Viterbo, que alerta sobre os riscos de anabolizantes nas redes sociais, para a VEJA SAÚDE.
Segundo o estudo italiano, o uso simultâneo de insulina e anabolizantes é “generalizado entre fisiculturistas e atletas“. Aproximadamente 7% deles admitem que utilizam as substâncias concomitantemente. Mas, enquanto hoje a Agência Mundial Antidoping tem testes capazes de detectar o uso de anabolizantes e do hormônio do crescimento, o abuso de insulina ainda não pode ser identificado pelos exames disponíveis. Os efeitos anabólicos da insulina em pessoas sem diabetes podem ser fatais.
Além disso, ainda faltam evidências sólidas de que ela realmente aumente a massa muscular de forma significativa. O risco, por outro lado, é bem conhecido. “O ponto importante é que a insulina não é uma medicação simples de ser utilizada, e ela pode trazer eventos adversos, agudos e graves, como a hipoglicemia”, alerta Paulo Miranda, ex-presidente e atual coordenador do departamento internacional da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). Esse é o risco mais imediato da insulina.
Um erro mínimo no cálculo da dose, ou um simples atraso de uma refeição após aplicação, pode reduzir o açúcar no sangue a níveis perigosos, levando a convulsões, dano cerebral irreversível e a morte súbita. Para quem tem indicação, o uso é seguro, afinal é feito em doses individualizadas, de acordo com a necessidade individual, e sob orientação. Além disso, para pessoas com diabetes, o reforço de insulina vem em um contexto de falta do hormônio no corpo. “A insulina está sendo reposta em quantidades fisiológicas. Ou seja, está se repondo aquilo que o paciente não tem”, explica Tarissa Petry, endocrinologista do Centro Especializado em Obesidade e Diabetes do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.
Mesmo assim, algumas vezes a quantidade acaba sendo acima do necessário e a pessoa pode ter hipoglicemia. Porém, ela provavelmente saberá lidar com a situação. “Para as pessoas com diabetes, essas doses são calculadas e sempre acompanhadas de monitoramento e um programa de educação para o autocontrole e o autocuidado”, destaca Miranda. Já em pessoas que sem a condição, a aplicação representa um excesso.
Além disso, entre os bodybuilders, a insulina raramente é a única vilã, já que costuma ser associada a outros anabolizantes ou GH. E as interações com outros compostos potencializam os riscos de colapso do corpo. Por isso, os médicos destacam: “insulina não é um atalho para ganho muscular“, dizem Redorat e Pirozzi. “É uma medicação séria, que salva vidas quando usada corretamente no tratamento do diabetes, mas que pode custar vidas quando utilizada de maneira irresponsável para fins estéticos ou de performance”, concluem.
Segundo laudos do Instituto Médico Legal (IML), Gabriel Ganley pode ter sido vítima de uma morte súbita relacionada ao quadro de cardiomiopatia hipertrófica. As informações foram divulgadas pela CNN. Essa condição é caracterizada pelo crescimento anormal do músculo que forma o coração, o miocárdio. Apesar de ter causa majoritariamente genética e hereditária, o uso de esteroides anabolizantes também pode levar ao quadro.
A cardiomiopatia hipertrófica é a alteração estrutural cardíaca hereditária mais comum do mundo, afetando cerca de 1 em cada 500 pessoas na população geral. “O risco dessa condição é o coração passar a funcionar de maneira inadequada“, explica Elry Medeiros, cardiologista do Núcleo de Medicina Afetiva (NuMA) e do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia. “Imagine que o coração permanece hipertrofiado por muito tempo: chega um momento em que ele “cansa” e pode evoluir para insuficiência cardíaca”, exemplifica. A condição é genética, mas alguns outros aspectos de saúde podem fazer com que o coração do paciente fique com suas paredes mais espessas do que o normal, especialmente o uso dos esteroides.
Isso porque os anabolizantes estimulam o crescimento muscular em todo o organismo – e o coração não fica de fora. “A pessoa pode desenvolver ainda mais hipertrofia, mais alterações cardíacas e maior risco das mesmas complicações associadas à doença, como arritmias e obstrução da saída de sangue do coração. Ou seja: uma condição potencializa a outra”, diz Medeiros. Além disso, diversos outros problemas podem ser associados a esse tipo de sustância. Um estudo publicado no periódico da American Heart Association acompanhou mais de 60 mil pessoas por uma média de 11 anos, usuários de anabolizantes apresentaram um risco três vezes maior de infarto agudo do miocárdio e um risco quase nove vezes maior de desenvolver cardiomiopatia.
É por isso que Medeiros ressalta que nem mesmo pequenas doses dessas substâncias podem ser consideradas utilizáveis. “Não existe nenhum contexto em que o uso de anabolizantes [para fins estéticos] seja seguro para o coração”, avisa.