Nesta quinta-feira (18), a revista Matter & Light publicou um artigo que revela os métodos de produção de uma coloração para automóveis. Não se trata de qualquer revestimento, mas sim de um pigmento composto de negro de fumo e nanotubos de carbono. O resultado é um “preto profundo” utilizado pelas montadoras chinesas na fabricação de veículos modernos e luxuosos. Na China, o ultrapreto é uma cor associada ao luxo e à elegância. O impacto sobre a aparência dos automóveis é tamanho que a cor dos veículos “se tornou um ponto de venda fundamental”, como contou Zhiwei Liu, da Nipsea Groupp, em comunicado. Por isso que as empresas de revestimento automotivo têm inovado as suas tecnologias de cores para aplicarem o processo em massa.

Ultrapretinho (nada) básico O revestimento é uma febre entre os chineses desde 2019, quando um carro da BMW apareceu revestido de nanotubos de carbono alinhados verticalmente. A aparição motivou que a indústria automotiva do país começasse a desenvolver colorações de preto tão profundas que fossem capazes de absorver a luz do sol quase que por completo. A ideia é que a aparência escura e marcante dos veículos crie um efeito de “buraco negro”.

Para isso, a equipe de Liu combinou materiais distintos, entre eles, o pigmento de negro de fumo (nome chique para partículas bem fininhas de carvão) e nanotubos de carbono (espécies de canudinhos de carbono superpequenos). A nova técnica utiliza o princípio da “absorção estrutural”, ao contrário das abordagens tradicionais na produção de revestimentos pretos, que dependem de dispersões de negro de fumo para absorver a luz, o que impõe um limite à intensidade da cor. Com isso, o material alcança níveis muito mais elevados de absorção luminosa, sendo capaz de absorver, em média, 99,9% dos comprimentos de onda da luz visível. Processo esquemático de preparação do revestimento ultrapreto

Juntos, os materiais formam o compósito: um produto com propriedades térmicas, elétricas e até mecânicas diferentes das dos componentes originais. Já que estamos falando de um produto totalmente novo, a sua aplicação nos veículos também difere da maneira como a tintura é aplicada. O compósito também é composto por um aglutinante de revestimento, isto é, uma “cola” que permite a tinta grudar na lataria do automóvel. Isso, claro, com a ajuda de um pulverizador (um “spray”) sobre o carro. Essa aplicação minuciosa também apresentou ganhos a longo prazo, uma vez que o automóvel demonstrou estabilidade mesmo quando esteve exposto a testes de água e umidade, animando os pesquisadores e as montadoras para o seu uso industrial.

Os pesquisadores acreditam que o “preto profundo” será um sucesso, sobretudo, na China. Embora o projeto técnico de fabricação do pigmento tenha sido concluído, ainda não há perspectivas de quando os primeiros veículos revestidos com essa coloração poderão circular nas ruas. Por enquanto, Liu disse que “os esforços futuros se concentrarão nas validações do desempenho do filme de revestimento”. Segundo ele, ainda existem desafios relacionados à aplicação industrial da tecnologia: “com o rápido desenvolvimento da tecnologia e dos equipamentos de dispersão, ainda há espaço para melhorias na processabilidade prática de nanomateriais contendo nanotubos de carbono”. Entre as próximas análises, está a possibilidade de se utilizar uma maior proporção de nanotubos de carbono no revestimento, já que eles aumentam a capacidade do produto de absorver luz, mas podem trazer dificuldades para o desenvolvimento em escala industrial.

A longo prazo, os pesquisadores planejam elaborar um revestimento ultranegro com múltiplas camadas e um índice de refração gradiente da luz que reduza a reflexão e aprimore a absorção da luz visível. Caso o projeto se concretize, teremos carros ainda mais escuros.