Um estudo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences no dia 13 de abril descreve o que pode ser a evidência mais antiga de cremação humana já identificada. Se a hipótese for confirmada, a prática funerária teria ocorrido há cerca de 100 mil anos no sítio arqueológico de Middle Awash, no Vale do Rift de Afar, na Etiópia. De acordo com a equipe internacional de pesquisadores responsáveis pelos achados, os ossos apresentam sinais típicos de exposição intensa ao fogo, incluindo rachaduras, carbonização, descoloração e fragmentação. Tanto o molar quanto os fragmentos superficiais adicionais apresentam evidências de queima em alta temperatura.

Evidências ainda exigem cautela Por mais que os vestígios sejam compatíveis com cremação intencional, os pesquisadores afirmam que ainda não é possível chegar a uma conclusão definitiva. Isso porque o sítio arqueológico também apresenta sinais de incêndios intensos provocados por outras fontes. Mesmo assim, os cientistas destacam que as alterações observadas nos ossos se aproximam das encontradas em análises forenses modernas de cremação.

Em contextos forenses modernos, alterações nos ossos e dentes que correspondam às observadas neste esqueleto humano parcial provavelmente seriam classificadas como uma cremação intencional envolvendo intensidades de fogo superiores às observadas na maioria dos incêndios florestais. Caso a interpretação esteja correta, a descoberta revelaria uma prática funerária até então desconhecida no Paleolítico Médio. Como viviam os primeiros Homo sapiens Além dos vestígios queimados, o trabalho também oferece novas pistas sobre o cotidiano humano na região há 100 mil anos.

Milhares de ferramentas de pedra encontradas em Middle Awash indicam que grupos humanos retornavam repetidamente ao local, provavelmente acompanhando os ciclos de inundação do antigo rio Awash. Os pesquisadores também localizaram objetos de obsidiana produzidos em áreas distantes, sinal de deslocamentos frequentes e de longa distância. Segundo a equipe, os artefatos permaneceram preservados em camadas praticamente intactas, algo raro em sítios arqueológicos a céu aberto desse período. “Esta pesquisa nos ajuda a construir uma compreensão abrangente de como os primeiros Homo sapiens interagiram com o seu ambiente”, afirma Ferhat Kaya, pesquisadora da Universidade de Oulu, na Finlândia, e coautora do projeto, em comunicado. “Nossos resultados sugerem que fatores e mudanças locais relacionados à água foram mais decisivos do que as variações climáticas globais.”

A análise de mais de 3 mil fósseis de animais revelou ainda um ecossistema diverso, com presença de macacos, roedores e grandes mamíferos. Isso tem ajudado os cientistas a imaginarem e reconstruírem o ambiente ocupado pelos primeiros humanos no leste da África.