Um esqueleto de cerca de 5 mil anos encontrado em uma antiga estrutura usada como forno no centro da Alemanha está intrigando arqueólogos. O sepultamento, considerado incomum para a época, pode representar um raro caso de sacrifício humano na pré-história europeia. A descoberta foi feita próximo à vila de Gerstewitz, no estado da Saxônia-Anhalt, durante escavações feitas antes da construção de uma nova linha de transmissão de energia. Os restos mortais pertencem a um homem que tinha aproximadamente 25 anos.

Além de ter sido enterrado em um local atípico, o indivíduo apresentava sinais de ferimentos no crânio. Diante dessas evidências, o Escritório Estadual de Gestão do Patrimônio e Arqueologia da Saxônia-Anhalt revelou, em comunicado divulgado na segunda-feira (15), trabalhar com três hipóteses principais: assassinato, morte em combate ou sacrifício ritual. Enterrado onde normalmente não havia sepultamentos O achado pertence à chamada Cultura da Cerâmica Cordada, uma sociedade que se espalhou por amplas áreas do norte e do centro da Europa entre aproximadamente 2900 e 2050 a.C., período de transição entre o Neolítico final e a Idade do Bronze.

O nome dessa cultura vem das marcas semelhantes a cordas impressas em seus recipientes de cerâmica. Como lembra o portal Live Science, os povos da Cerâmica Cordada costumavam seguir regras bastante rígidas para seus enterros. Homens eram normalmente colocados sobre o lado direito do corpo, mulheres sobre o esquerdo, ambos em posição fetal e voltados para o sul. O esqueleto encontrado em Gerstewitz segue parte desse padrão.

O homem estava deitado sobre o lado direito e voltado para o sul. No entanto, o local escolhido para seu enterro foge completamente do esperado. Em vez de uma sepultura convencional, o corpo foi depositado em uma fossa de forno — uma cavidade subterrânea anteriormente utilizada para queimar materiais, como madeira, alimentos ou argila. Segundo os pesquisadores, estruturas desse tipo geralmente não contêm objetos, restos humanos ou outros vestígios arqueológicos relevantes.

Os arqueólogos observaram ainda que a parte superior do corpo estava deslocada em relação ao restante do esqueleto. Isso sugere que o homem pode ter sido originalmente depositado sobre uma camada de material orgânico, como madeira, couro ou vegetação, que se decompôs ao longo dos milênios. Assassinato, batalha ou ritual? A presença de um ferimento no crânio tornou a interpretação do caso ainda mais complexa.

Uma possibilidade é que o homem tenha sido vítima de homicídio. Outra hipótese sugere que ele tenha morrido em algum confronto violento ocorrido durante a Idade do Cobre — período marcado por mudanças tecnológicas e transformações sociais em várias regiões da Europa. Mas existe uma terceira explicação, considerada particularmente intrigante pelos especialistas: o indivíduo poderia ter sido sacrificado. De acordo com órgão responsável pelas escavações, fossas de forno associadas à Cultura da Cerâmica Cordada ocasionalmente contêm esqueletos completos de bovinos ou restos de cães parcialmente desmembrados.

Esses depósitos são interpretados como possíveis oferendas destinadas a divindades ou forças sobrenaturais. Embora os pesquisadores ressaltem que ainda não há evidências suficientes para confirmar um sacrifício humano, a combinação entre o ferimento craniano e o contexto incomum do sepultamento torna essa hipótese plausível. O mistério ganha ainda mais relevância devido à longa história de ocupação humana da região. As escavações revelaram que a colina onde o esqueleto foi encontrado foi utilizada por diferentes sociedades durante cerca de 6 mil anos.

Entre aproximadamente 4000 e 3400 a.C., grupos da chamada Cultura Baalberge construíram no local um grande monte funerário que teria alcançado até 15 metros de altura e cobria uma câmara mortuária de madeira. Séculos depois, entre cerca de 3400 e 3100 a.C., povos ligados à Cultura Salzmünde ergueram um complexo sistema de valas e aterros. Segundo os arqueólogos, o local parece ter servido para cerimônias elaboradas. Vestígios de casas queimadas, além de ossos humanos e de animais depositados em fossas profundas, sugerem práticas rituais recorrentes.

A descoberta reforça uma série de achados recentes na área. Em escavações anteriores, pesquisadores encontraram fossas contendo ossos de cães, crânios humanos e vasos cerâmicos completos, todos associados à Cultura Salzmünde. Também foi identificado outro esqueleto humano enterrado em uma antiga fossa de forno adaptada para funcionar como sepultura. As investigações arqueológicas fazem parte de um amplo programa de resgate patrimonial realizado ao longo do traçado da futura linha de transmissão SuedOstLink, um grande projeto de infraestrutura energética que transportará eletricidade por corrente contínua de alta tensão entre diferentes regiões da Alemanha.

Em diversos pontos do percurso, os trabalhos vêm revelando novos detalhes sobre a ocupação humana da região ao longo de milhares de anos. Os estudos em Gerstewitz devem prosseguir pelos próximos anos. Espera-se que os resultados das análises de laboratório possam determinar se o homem morreu em um episódio de violência comum para a época ou se foi protagonista de um dos raros exemplos de sacrifício humano já identificados na pré-história europeia.