O uso do fogo por ancestrais humanos pode ter começado até 700 mil anos antes do que indicavam as evidências mais aceitas pela comunidade científica, sugere um estudo publicado no dia 1º de junho na revista PLOS ONE. Conduzida pelo Museu Nacional de Ciências Naturais da Espanha e pela Universidade de Toronto, no Canadá, a pesquisa concluiu que hominídeos da espécie Homo erectus já poderiam ter utilizado fogo regularmente entre 1,07 milhão e 1,79 milhão de anos atrás na Caverna Wonderwerk, na África do Sul. Para chegar a essa hipótese, a equipe analisou sinais de combustão em ossos encontrados no interior da caverna por meio de uma técnica inédita baseada em luminescência. Caso a interpretação desses resultados seja confirmada, a descoberta empurrará para muito mais longe no passado uma das inovações tecnológicas mais importantes da história humana.
Até agora, as evidências mais sólidas de uso recorrente e controlado do fogo por hominídeos remontavam há cerca de 800 mil anos. Curiosamente, parte dessas evidências também havia sido encontrada na própria Caverna Wonderwerk, considerada um dos sítios arqueológicos mais importantes para a investigação das origens do fogo. Vestígios de queimadas em camadas milenares Os pesquisadores analisaram fragmentos ósseos preservados no chamado Estrato 11 da caverna, uma camada arqueológica datada entre 1,07 milhão e 1,79 milhão de anos.
A equipe aplicou um método não invasivo que permite identificar alterações provocadas pelo calor na estrutura dos ossos. O calor modifica profundamente a composição óssea. Como consequência, ossos queimados brilham de maneira diferente dos não queimados quando expostos a uma luz azul intensa, característica explorada pela nova técnica. Na imagem, é possível visualizar a localização da Caverna Wonderwerk (A), a área de escavação no sítio arqueológico (B), a planta da grade de escavação (C) e o perfil norte mostrando as unidades litoestratigráficas da carverna (D)
Dolores Marin-Monfort et al. A análise revelou que uma parcela significativa dos restos examinados apresentava sinais compatíveis com exposição ao fogo. Grande parte desse material era formada por ossos de pequenos animais acumulados em pelotas produzidas por aves de rapina noturnas. Essas estruturas são compostas por restos de presas que não foram digeridos e posteriormente regurgitados pelas aves.
A interpretação proposta pelos autores é que grupos humanos podem ter aproveitado esses aglomerados naturais como combustível dentro da caverna. Indícios apontam para ação humana, mas debate continua A hipótese ganha força porque os vestígios queimados foram encontrados a cerca de 30 metros da entrada atual da gruta. Para os autores, essa localização torna menos provável que incêndios naturais ocorridos do lado de fora tenham alcançado o material de forma acidental.
Outro elemento considerado relevante é a repetição dos episódios de combustão ao longo da sequência arqueológica. A equipe sugere que os hominídeos poderiam ter transportado fogo do exterior para o interior da caverna, utilizando tochas acesas para iniciar pequenas queimas. Nesse cenário, o fogo não seria apenas aproveitado de forma passiva após incêndios naturais, mas empregado de maneira deliberada. Nem todos os especialistas, porém, consideram que as evidências sejam suficientes para encerrar a discussão, destaca o portal Science Media Centre.
Alguns apontam que ainda faltam provas diretas que demonstrem a participação humana na geração das chamas. Evidências ligadas a atividades específicas, como o cozimento de alimentos, ajudariam a sustentar uma revisão tão profunda da cronologia do fogo. Tecnologia decisiva para a evolução A importância da descoberta vai além da simples datação de fogueiras antigas.
O fogo é considerado uma das tecnologias mais transformadoras da evolução humana. O processamento térmico dos alimentos permitiu extrair mais energia da dieta, melhorar a digestão e ampliar o valor nutricional dos recursos consumidos pelos hominídeos. Essas mudanças estão associadas a transformações biológicas importantes, incluindo alterações corporais e o aumento do tamanho do cérebro ao longo da evolução humana. O uso controlado do fogo também é relacionado ao fortalecimento dos laços sociais, à ocupação de ambientes mais hostis e à expansão geográfica dos grupos humanos.