O mundo do fisiculturismo foi pego de surpresa na manhã de 23 de maio com o anúncio da morte de Gabriel Ganley, atleta de 22 anos que foi encontrado morto em sua casa em São Paulo. Com mais de 1,7 milhão de seguidores em redes sociais, o jovem compartilhava sua rotina de treinos e alimentação para o que afirmava ser fisiculturismo natural, que consiste na prática de ganho muscular sem o uso de hormônios. A causa da morte de Ganley foi descrita como cardiomiopatia hipertrófica, sendo que mais exames do Instituto Médico Legal (IML) devem esclarecer detalhes do mal súbito. Diversos medicamentos foram apreendidos no apartamento do atleta, que também passarão por análises.
Outros casos recentes de mortes prematuras de fisiculturistas têm levantado questões sobre a segurança de praticar essa modalidade. Um estudo, publicado em 2025 na revista científica European Heart Journal investigou o risco de mortalidade dos atletas e verificou que, entre 2005 e 2020, 121 atletas de circuitos internacionais morreram, sendo 73 dos casos considerados mortes súbitas. Mortes entre atletas profissionais Foram analisados um total de 20.286 atletas do sexo masculino competindo em 730 eventos da IFBB (Federação Internacional de Fisiculturismo e Fitness), todos classificados por idade, categoria e nível.
Das 73 mortes súbitas identificadas, cerca de 63% delas (46) foram classificadas com morte súbita cardíaca (MSC), que ocorrem com a cessão repentina e inesperada da função cardíaca. Segundo o estudo, autópsias disponíveis dos casos de MSC mostraram sinais de cardiomegalia – aumento do tamanho do coração – e hipertrofia ventricular – espessamento da parede do coração. Foi observado também observado que fisiculturistas profissionais apresentavam maiores riscos de MSC do que amadadores Tima Miroshnichenko/Pexels
"O fisiculturismo envolve diversas práticas que podem impactar a saúde, como treinamento de força extremo, estratégias de perda de peso rápida, incluindo restrições alimentares severas e desidratação, além do uso generalizado de diferentes substâncias para melhorar o desempenho”, diz Marco Vecchiato, professor da Universidade de Pádua, na Itália, e um dos autores do estudo, em comunicado. “Essas abordagens podem sobrecarregar significativamente o sistema cardiovascular, aumentar o risco de arritmia cardíaca e levar a alterações estruturais no coração ao longo do tempo”, completa o médico, que afirma que o risco pode ser maior em fisiculturistas profissionais, já que eles têm maior probabilidade de se envolver nas práticas mencionadas por períodos mais prolongados. Riscos para diferentes grupos De modo geral, os pesquisadores do estudo levantam questionamentos sobre a segurança de se praticar a modalidade e ressaltam a importância de se ter um aconselhamento e monitoramento cardiovascular para fisiculturistas, inclusive para atletas jovens e aparentemente saudáveis.
A condição de assumir que a aparência por si só seja um indicador de saúde também pode criar uma barreira para que os riscos sejam identificados antes que as mortes aconteçam. É um problema que, para os pesquisadores, não deve ser ignorado, principalmente porque “a conduta de atletas famosos pode influenciar muitas outras pessoas que praticam musculação em academias ao redor do mundo”.