A dengue, doença há muito associada a países tropicais e subtropicais, começa a ganhar espaço em uma região onde historicamente era considerada rara: os Estados Unidos. Um estudo publicado no dia 25 de maio na revista The Lancet Regional Health Americas indica que o aquecimento global está tornando partes da Califórnia mais favoráveis à transmissão do vírus, aumentando o risco de infecções locais e acendendo um alerta para as autoridades de saúde do país. Estima-se que cerca de 18,2 milhões de pessoas — o equivalente a 46% da população californiana — já vivem em áreas com condições adequadas para a circulação local da dengue. No futuro, esse contingente poderá crescer em mais de 4 milhões de habitantes.
“Considerando que a Califórnia só registrou seus primeiros casos de dengue adquirida localmente em 2023, ficamos surpresos com a extensão do risco atual prevista pelo nosso modelo”, pontua Andy MacDonald, professor da Universidade da Califórnia em Santa Barbara e autor do estudo, em comunicado. Transmitida principalmente pela picada da fêmea do mosquito Aedes aegypti, a dengue é uma das doenças infecciosas que mais crescem no mundo. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), ela afeta países de todos os continentes e cerca de 500 milhões de pessoas no continente americano vivem em áreas sob risco de infecção. Os quatro sorotipos conhecidos do vírus (DENV-1, DENV-2, DENV-3 e DEN-V 4) circulam na região, às vezes simultaneamente, ampliando o potencial de transmissão e de formas graves da doença.
Doença incapacitante e potencialmente fatal Conhecida popularmente como “febre quebra-ossos”, a dengue pode provocar sintomas intensos. Embora aproximadamente metade das pessoas infectadas não apresente manifestações clínicas, os demais pacientes podem desenvolver febre alta, dores musculares e articulares intensas, dor de cabeça, dor atrás dos olhos, manchas vermelhas na pele e fadiga extrema. “É uma doença terrível”, resume Lisa Couper, pesquisadora da Universidade da Califórnia em Berkeley e principal autora do estudo. “Mesmo os casos leves são descritos como tendo febre muito alta, dor nas articulações, dor muscular e fadiga intensa. Os casos mais graves podem envolver vômitos, sangramento e incapacidade por semanas, podendo ser fatais.”
Entre os sinais de alerta para a evolução da doença estão dor abdominal intensa, vômitos persistentes, tontura, dificuldade para respirar e sangramentos. Sem atendimento adequado, os casos graves podem levar ao comprometimento de órgãos, choque circulatório e morte. O mosquito Aedes aegypti foi identificado pela primeira vez na Califórnia em 2013. Em pouco mais de uma década, espalhou-se por mais da metade dos condados do estado.
O marco mais preocupante ocorreu em 2023. Naquele ano, uma pessoa foi hospitalizada com dengue na cidade de Pasadena sem histórico recente de viagem internacional. Durante uma investigação sanitária na vizinhança, as autoridades identificaram outra pessoa infectada, também sem ter viajado. Foi a primeira evidência de transmissão local da doença na Califórnia.
Até hoje, o número de casos autóctones — aqueles contraídos dentro do próprio território — permanece pequeno, com cerca de 20 registros. A maioria das infecções continua associada a viajantes que retornam de regiões onde a dengue é endêmica. Mesmo assim, os pesquisadores acreditam que esse cenário pode mudar. “A Califórnia está no limite da temperatura ideal para a dengue”, explica Couper.
“A temperatura ideal para o vírus se reproduzir é em torno de 29ºC. Durante boa parte do ano, e na maioria dos lugares, a Califórnia fica abaixo dessa temperatura ideal. Mas, com o aquecimento do clima na Califórnia, estamos nos aproximando dela.” Papel das mudanças climáticas O estudo analisou três fatores fundamentais para a disseminação da dengue: a presença provável do mosquito transmissor, o fluxo de pessoas vindas de regiões onde o vírus circula e temperaturas adequadas para que o vírus consiga completar seu ciclo dentro do inseto. Os resultados mostram que áreas do Vale Central e do sul da Califórnia já apresentam condições favoráveis para a transmissão local.
A explicação está na própria biologia do vírus. Depois que o mosquito pica uma pessoa infectada, ele não transmite imediatamente a doença para outra pessoa. O vírus precisa se multiplicar dentro do inseto até atingir uma concentração suficiente para ser transmitido. Risco atual de transmissão da dengue na Califórnia
“Não é como se um Aedes aegypti pudesse picar uma pessoa infectada e imediatamente picar e transmitir a dengue para outra pessoa”, indica Couper. “O mosquito absorve o vírus, mas esse vírus leva um tempo para se desenvolver dentro do mosquito e se tornar infeccioso para outra pessoa.” Em temperaturas mais baixas, esse processo ocorre mais lentamente. Com o aumento das temperaturas médias, porém, a reprodução viral se acelera, ampliando as chances de transmissão. MacDonald acrescenta que o problema tende a se intensificar nos próximos anos.
“O risco de transmissão se expandirá geograficamente e se estenderá por períodos mais longos sazonalmente, à medida que o clima e o uso da terra mudarem”, sugere o especialista. Ameaça ultrapassa fronteiras A preocupação dos cientistas não se limita à dengue. Vale lembrar que o mesmo mosquito também transmite outras arboviroses, como chikungunya e zika.
“O aquecimento climático está aumentando a transmissão dessas doenças transmitidas por fatores ambientais em regiões temperadas que estão no limite da sua adequação, como na Califórnia”, afirma Couper. “Também podemos observar riscos crescentes de doenças como chikungunya e zika, que são transmitidas pelo mesmo mosquito.” A situação observada nos Estados Unidos reflete uma tendência já conhecida em países como o Brasil. Segundo o Ministério da Saúde, fatores como urbanização acelerada, crescimento populacional desordenado, deficiências de saneamento básico e condições climáticas favoráveis criam o ambiente ideal para a proliferação do Aedes aegypti. No Brasil, a dengue é considerada endêmica há décadas.
A primeira epidemia documentada ocorreu entre 1981 e 1982, em Boa Vista (RR). Desde então, surtos e epidemias se repetem periodicamente, impulsionados pela expansão do mosquito e pela circulação de diferentes sorotipos do vírus. Prevenção continua sendo a principal arma Apesar dos avanços na vacinação — o Brasil tornou-se o primeiro país do mundo a incorporar uma vacina contra a dengue em seu sistema público de saúde —, especialistas ressaltam que o controle do mosquito continua sendo a principal estratégia de prevenção.
Eliminar recipientes com água parada, vedar caixas-d'água, limpar calhas, usar repelentes e instalar telas em janelas estão entre as medidas mais eficazes para reduzir a proliferação do vetor. Na Califórnia, as recomendações seguem a mesma lógica. Além de evitar criadouros do mosquito, autoridades orientam que pessoas que retornam de áreas onde a dengue é comum continuem utilizando repelente por algumas semanas, mesmo sem sintomas, para impedir que o vírus seja introduzido na população local. Os pesquisadores reforçam que não há motivo para pânico imediato.
A transmissão local ainda é limitada. No entanto, o avanço da doença para regiões antes consideradas seguras demonstra como as mudanças climáticas podem alterar rapidamente o mapa global das enfermidades infecciosas. “Atualmente, as pessoas na Califórnia têm, em geral, maior probabilidade de contrair dengue viajando para uma região endêmica do que localmente”, observa Couper. “Mas o risco aqui parece estar aumentando.”