Imagine que você precise ir ao pronto-socorro, mas o acesso mais fácil só acontece pela água. Esta é a realidade de muitas comunidades que vivem no interior da floresta Amazônica. Só que tem um problema: a urgência é inimiga dos rios ou dos atendimentos fluviais. A lentidão desses veículos, afinal, pode ser uma pedra no sapato logística – e, pior, também depende dos períodos de cheia e seca dos rios amazônicos.
Pensando em facilitar a mobilidade no contexto amazônico, um novo projeto brasileiro propõe a criação de um barco voador adaptado. O projeto é uma proposta da AeroRiver, startup criada em 2020 por engenheiros do norte do país formados pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), e consiste em um “veículo de efeito solo”. O conceito envolve uma mistura entre barco e avião – que voa a apenas cinco metros de distância do corpo d’água. O objetivo é que o novo barco possa transportar dez pessoas ou uma carga de cerca de uma tonelada a uma velocidade de 150 km/h. Essa dinâmica faz com que a tecnologia tenha potencial de encurtar viagens que, hoje, duram dias.
“A região possui uma das maiores redes hidrográficas do mundo, mas enfrenta limitações significativas em mobilidade", explicou Lucas Guimarães, ex-aluno do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), é um dos responsáveis pelo desenvolvimento do novo veículo. "Existe um compromisso em desenvolver soluções adaptadas à realidade local, que sejam eficientes do ponto de vista técnico e também gerem impacto social relevante”, contou. Uma das vantagens desse novo veículo é que ele continuará a utilizar a estrutura fluvial da região, não existindo a necessidade de utilizar uma infraestrutura aeroportuária complexa. Resolução essa que sustenta a escolha de Guimarães pela tecnologia do “efeito solo”, pensada e aplicada em regiões onde as estradas são escassas, aeroportos são limitados e as vias aquáticas continuam a ser o principal modal de transporte. “Outra grande vantagem é a regulamentação, pois o veículo é considerado uma embarcação e não um avião”, contou Guimarães.
E tanto não será considerado uma aeronave, que o veículo poderá apresentar até 40% mais eficiência que as aeronaves tradicionais. Uma das principais iniciativas do projeto é ampliar a conexão entre as comunidades remotas e os centros urbanos De acordo com Guimarães, o plano é que os barcos voadores comecem a operar até o fim do ano. A equipe passou da fase dos modelos e agora tem construído o veículo em escala real: “já temos um protótipo em subescala que já foi bem testado e estamos agora trabalhando para que ele seja um drone de transporte de pequenas cargas, em torno de 20 kg”, compartilhou o engenheiro, em comunicado.
Construção do primeiro veículo em escala real aconteceu após 4 anos de trabalho Se bem-sucedido, os barcos voadores não apenas reduzirão o tempo de deslocamento, mas também os impactos econômicos negativos na região, bem como os custos logísticos. “A meta é consolidar uma operação regular em rotas estratégicas da Amazônia e transformar a tecnologia em uma alternativa viável para regiões onde o transporte ainda representa um dos principais obstáculos ao desenvolvimento econômico e social”, disse Guimarães. O projeto da AeroRiver recebeu apoio pela segunda edição do Programa Centelha, que dá bolsas para o desenvolvimento de novos negócios.
A iniciativa é promovida pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), em parceria com o Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (CONFAP) e a Fundação CERTI. Nas suas duas primeiras edições, o programa apoiou a criação de 1.640 startups e envolveu mais de 65 mil empreendedores pelo Brasil.