O continente africano concentra cerca de 95% de todas as mortes causadas por malária no mundo, o equivalente a 580 mil óbitos por ano. O impacto da doença costuma atingir principalmente os mais vulneráveis, como crianças menores de cinco anos, que representam aproximadamente 78% dessas mortes. Agora, avanços na ciência têm permitido que a ampliação de aplicações de vacinas em países africanos salve a vida de uma em cada oito crianças, reduzindo significativamente a mortalidade infantil de regiões como Gana, Quênia e Malawi. Um estudo, publicado no dia 8 de maio na revista científica The Lancet, traz os resultados de quatro anos de estudo sobre o uso da vacina RTS,S/AS01 (ou Mosquirix), primeira vacina licenciada do mundo contra a malária.

Efeitos da ampla vacinação O estudo utilizou dados do Programa de Implementação da Vacina contra a Malária da Organização Mundial da Saúde (OMS), que contém informações sobre a implementação da vacina em três países africanos entre os anos de 2019 e 2023. A vacina é aplicada em quatro doses nas crianças a partir dos 5 meses de idade. “Foram selecionados e aleatoriamente designados 158 agrupamentos; 79 áreas serviram como áreas de implementação e 79 como áreas de comparação. No final do período de avaliação de 46 meses, 1.289.504 crianças tinham recebido a primeira dose da vacina RTS,S, 1.158.850 tinham recebido a segunda dose, 1.068.039 tinham recebido a terceira dose e 436.527 tinham recebido a quarta dose”, descrevem os autores na pesquisa.

Após a fase de aplicação das vacinas, foi contabilizado que, excluindo mortes por lesão, houve 5.576 óbitos nas áreas de implementação da vacina contra 6.152 nas áreas de comparação – ambos os casos considerando crianças elegíveis para receber a terceira dose da vacina. As campanhas de vacinação tem potencial de atingir mais grupos vulneráveis a partir do maior financiamento de planos de ação em postos de saúde “Esta é uma evidência muito sólida do potencial das vacinas contra a malária para mudar a trajetória da mortalidade infantil na África e da urgência em superar os desafios de financiamento para acelerar a sua implementação. A demanda é alta e a oferta é suficiente, mas é necessário mais financiamento para que os países possam comprar vacinas em quantidade suficiente”, afirma Kate O'Brien, chefe do Departamento de Imunização, Vacinas e Produtos Biológicos da OMS e participante do estudo, em comunicado.

Combinação de táticas de prevenção Mesmo com os avanços na implementação das vacinas, a malária ainda é responsável por muitas mortes na África. São milhares de mortes que podem ser evitadas não só com campanhas de vacinação, mas também a partir da combinação de estratégias de prevenção, diagnóstico e tratamento. Os autores citam o uso de mosquiteiros impregnados com inseticidas como uma outra forma útil de prevenção.

Com a ampliação dos programas de imunização infantil e de planos nacionais de controle da malária, o impacto nas taxas de mortalidade poderá ser observado cada vez mais. Porém, isso ainda depende de altos financiamentos, os quais impedem que muitos países africanos ampliem a vacinação contra a malária e mantenham níveis de cobertura vacinal. Segundo os autores, os resultados são mais um sinal de urgência para ações de acelerar o processo de imunização sejam tomadas.