A substituição dos canudos de plástico pelos de papel foi intensamente incentivada como um símbolo do avanço das ações sustentáveis. O problema é que desde a sua implementação, iniciada em 2018 e oficializada em 2019, diversas reclamações detonam os canudinhos mais ecológicos: “eles têm menos resistência”, “dificultam o consumo de bebidas mais densas”, “duram menos do que o necessário”, entre outros problemas. Não é nada pessoal contra os canudinhos de papel. As queixas, na verdade, provam que há um desafio maior: a existência de alternativas ambientalmente responsáveis que possam substituir o plástico.

Essa mudança, no entanto, é necessária, já que segundo a Avaliação Mundial dos Oceanos, publicada nesta segunda-feira (8), a cada ano, 52 milhões de toneladas do resíduo chegam aos oceanos e afetam mais de quatro mil espécies marinhas. Acontece que o plástico ainda é muito popular e pouco reciclado – apenas 10% do total produzido. Não à toa, diferentes países, sobretudo aqueles cujas economias são sustentadas pela exploração de combustíveis fósseis, são dependentes do mercado de plástico. Para combater a poluição plástica, a comunidade internacional tem trabalhado para inovar materiais, aumentar as alternativas que possam substituir o plástico e reduzir a produção.

No entanto, muitas das propostas ainda precisam superar obstáculos. Há décadas o plástico ficou famoso e se tornou um sistema global de embalagens. Seu favoritismo também conta com outras explicações, como o barateamento do custo, com tarifas que passaram dos 34% para os 7,2% em 30 anos. Entre as alternativas como o papel, o bambu, fibras naturais e, até mesmo, algas marinhas, as tarifas chegam aos 14,4% ou mais, o que não brilha os olhos de nenhuma economia, sejamos honestos.

Com porcentagens tão amplas, as mudanças sustentáveis não são capazes de competir com os plásticos convencionais. Outro problema é que a produção de plásticos continua a aumentar, já que eles “têm se beneficiado de décadas de amadurecimento do mercado, escala, infraestrutura e condições comerciais favoráveis”, comentou a UNCTAD (Agência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento), em comunicado. Isso não significa que nada poderá ser feito. Em 2023, por exemplo, o comércio global de substitutos do plástico atingiu a marca de US$485 bilhões.

O setor tem crescido, com potencial para continuar expandindo. Mas para isso, são exigidas ações que lidem com medidas tarifárias e não tarifárias, além de problemas referentes ao acesso limitado no mercado e a incentivos regulatórios. Uma baleia-azul, o maior mamífero do mundo, pode consumir até 10 milhões de pedaços de microplástico por dia, o equivalente a cerca de 43 quilos Outro desafio é que as alternativas não podem seguir a mesma lógica do ditado “trocar seis por meia dúzia”.

Ao contrário dos plásticos, os substitutos precisam seguir condições muito específicas para se biodegradarem que, por vezes, estão relacionadas à compostagem industrial, com temperatura e umidade bem controladas. Esse controle, por outro lado, não é encontrado nos oceanos, os ecossistemas mais prejudicados pela poluição plástica. O cenário também não é positivo em terra: alguns substitutos do material, produzidos à base de plantas, podem competir pelo uso do solo, o que gera outros impactos ambientais. Soluções e possíveis substitutos dos plásticos convencionais já têm despontado no mercado mundial.

Para além dos canudos de papel, materiais à base de algas marinhas estão surgindo como um substituto promissor, com destaque para o uso em embalagens. Esses organismos aquáticos crescem sem a necessidade de água doce, fertilizantes ou terras agrícolas, provando ser uma das estratégias mais promissoras de substituição. E a popularização já tem ocupado espaços: nos últimos 20 anos, a produção global de algas marinhas triplicou e as exportações, por sua vez, quadruplicaram. Na ilha de Zanzibar, as algas marinhas são agora o terceiro maior recurso

Apesar do potencial, entrar no comércio global de algas marinhas é um processo difícil para qualquer produtor. As regulamentações em torno das algas permanecem incompletas e fragmentadas, com destaque para novos usos que não estão claramente definidos nos sistemas de comércio internacional. Essa desorganização confunde os comerciantes e dificulta o cumprimento de exigências para a venda do produto. A nível de comparação: em 2022, foram produzidas 36,3 milhões de toneladas de algas marinhas, mas apenas 0,75 milhão foi comercializado internacionalmente.

A falta de clareza das regulamentações é somada às taxas tarifárias exorbitantes. Caso problemas como esses persistam, as alternativas sustentáveis vão continuar com dificuldade para competir com os plásticos convencionais e, sobretudo, para se tornarem populares entre os consumidores que, apesar das reclamações, são apoiadores de práticas mais sustentáveis.