A imagem de um avião coberto por pontos vermelhos virou um dos memes mais usados da internet para explicar erros de lógica e análises incompletas. Conhecido como “Avião do Viés de Sobrevivência”, ele mostra uma aeronave atingida por tiros nas asas e costuma aparecer em diversos tipos de discussões, que vão desde política e carreira até estudos e relacionamentos. A imagem tem origem em um exemplo da 2ª Guerra Mundial. Segundo o site Know Your Meme — que se dedica a documentar e explicar memes das redes sociais—, a Força Aérea Real Britânica analisava os danos sofridos pelos aviões que conseguiam retornar das missões e queria reforçar justamente as áreas mais atingidas pelos tiros.
No entanto, o matemático húngaro Abraham Wald discordou desse tipo de blindagem, já que, para ele, o reforço deveria ser colocado nas partes sem marcas de bala. Nada disso: os aviões atingidos nos pontos sem marcas de balas provavelmente não sobreviviam para voltar à base militar, e, por isso, não restavam para fazer parte das estatísticas. Reforçar os locais onde não havia marcas de bala, portanto, parecia uma ideia melhor. Essa ideia ficou conhecida como “viés de sobrevivência”, um erro de interpretação que acontece quando somente casos bem-sucedidos são considerados em uma análise, ignorando os que falharam ou desapareceram do recorte definido.
Algo típico das discussões de internet, onde todo mundo adora opinar sobre qualquer assunto sem qualquer embasamento, sem ter todas as informações necessárias ou querendo apenas confirmar suas opiniões. A versão visual (que você vê em destaque neste post) que viralizou na internet foi adicionada à Wikipédia em novembro de 2016. O desenho teria sido inspirado em um diagrama criado em 2005 para ilustrar o trabalho de Wald, o matemático húngaro. O meme começou a circular de forma mais ampla nas redes sociais a partir de 2019, e ganhou novas adaptações desde então.
Hoje, é comum que o desenho do avião seja um recurso usado para ironizar pesquisas, estatísticas e discursos tendenciosos, por exemplo, em fóruns e redes sociais. Um exemplo famoso envolve aquela frase "no passado, as coisas duravam mais", que costuma servir para resumir a ideia de obsolescência programada. É verdade que, com a democratização do acesso ao consumo, certos itens domésticos passaram a ser fabricados com matéria-prima menos resistente. Mas você deve levar em conta também que, para cada radio de pilha do vovô que funciona há 60 anos sem falha, existiram outros milhares que morreram e foram substituídos em poucos anos.
Afinal, no passado as coisas também estragavam e eram substituídas. Como todo brasileiro conhece casos de objetos fora da curva, no entanto, é possível acreditar que eles contam a história inteira, e que os rádios de antes, independentemente da marca, modelo e qualidade, pareciam sempre funcionar por mais tempo. Outra aplicação comum envolve publicações sobre sucesso profissional, conselhos financeiros e análises que consideram apenas exemplos que “deram certo”. Já ouviu alguém dizer, por exemplo, que largar a faculdade pode te deixar rico, como aconteceu com Bill Gates e Mark Zuckerberg?
Esse é um exemplo de “viés de sobrevivência”: quando só os casos de sucesso são considerados, enquanto milhares de histórias que deram errado ficam de fora. Dois bilionários de destaque "deram certo" com essa tática. Mas quantos milhões de anônimos acabaram com menos oportunidades por não terem acesso ao ensino superior? A moral da história é a seguinte: evite conclusões precipitadas sobre algum assunto - especialmente na internet.
Ainda que a regra pareça apontar para um caminho, é possível que alguma variável tenha ficado de fora.