Um navio mercante que afundou há aproximadamente 275 anos no estreito de Skagerrak, entre a Noruega e a Dinamarca, revelou aos arqueólogos uma carga de porcelana chinesa do século 18, lustres, cálices, tecidos, grãos e caixas que podem conter chá, ervas e medicamentos. Localizado a cerca de 600 metros de profundidade, o chamado “Naufrágio da Porcelana” foi descrito pelas autoridades como a carga mais bem preservada já encontrada no norte da Europa. A descoberta foi anunciada pelo Museu Marítimo Norueguês no dia 1º de junho, após uma série de investigações realizadas no local. Especialistas acreditam que a embarcação afundou por volta de 1750, em um período de intensa expansão do comércio marítimo entre a Europa e a Ásia.
Apesar dos séculos passados no fundo do mar, grande parte da carga permaneceu protegida dentro do casco da embarcação; por isso, a sua conservação. “Este achado não é apenas extraordinário, como também possui considerável valor científico e demonstra um importante avanço tecnológico na arqueologia subaquática. Ela nos proporciona uma nova e valiosa visão sobre a história marítima da Noruega e do norte da Europa”, afirma o ministro norueguês Andreas Bjelland Eriksen, responsável pela pasta de Clima e Meio Ambiente, em comunicado à imprensa. O naufrágio foi encontrado por Espen Saastad, que trabalha como fabricante de relógios na cidade de Porsgrunn, no sudeste da Noruega. Paralelamente, ele administra uma pequena empresa especializada em levantamentos e operações subaquáticas.
Durante uma dessas atividades, Saastad identificou a embarcação no fundo do mar e notificou imediatamente as autoridades. Desde então, passou a colaborar com os arqueólogos do Museu Marítimo Norueguês na investigação do sítio arqueológico. Muito diferente de outros navios históricos encontrados próximos à costa, este naufrágio não foi danificado por correntes, atividades humanas ou saques. A disposição em uma área remota e de grande profundidade ajudou a protegê-la ao longo dos séculos.
“Isto marca o início de uma nova era para a arqueologia norueguesa. Os naufrágios encontrados ao largo da costa estão frequentemente danificados ou já foram saqueados. A nossa descoberta em mar aberto, a uma profundidade tão grande, dá-nos a oportunidade de estudar uma cápsula do tempo notavelmente bem preservada”, aponta Nina Refseth, diretora da Fundação do Museu Norueguês de História Cultural. Para investigar o local, arqueólogos marinhos utilizaram um ROV, sigla para veículo operado remotamente.
Trata-se de uma espécie de robô submarino equipado com câmeras, braço mecânico e sistema de sucção, capaz de trabalhar em profundidades inacessíveis para mergulhadores humanos. Conectado ao navio de pesquisa por um cabo de aproximadamente um quilômetro de extensão, o equipamento permitiu registrar imagens detalhadas do sítio arqueológico e recuperar alguns objetos para estudo. Os pesquisadores também empregaram a fotogrametria, técnica que utiliza centenas ou milhares de fotografias sobrepostas para criar modelos tridimensionais extremamente precisos. Com esse método, foi possível produzir uma reconstrução digital detalhada da embarcação.
Assim, os investigadores identificaram a presença de grandes quantidades de porcelana chinesa decorada principalmente nas cores azul e branca. Também foram encontradas peças de porcelana de Batávia — caracterizadas pelo exterior marrom e interior azul e branco — além de exemplares que podem pertencer ao tipo conhecido como Blanc de Chine, uma porcelana branca produzida na China. Uma das xícaras recuperadas apresenta vestígios de um monograma, inscrição que poderá ajudar os especialistas a identificar o fabricante, o proprietário ou até mesmo o comprador original da peça. A carga inclui ainda fragmentos de lustres provavelmente fabricados na Alemanha ou na Inglaterra, cálices, garrafas de vidro, cordas, utensílios de cozinha e um fogão de ferro fundido.
Diversas caixas permanecem fechadas. Uma delas aparenta conter tecidos, enquanto outra guarda materiais orgânicos que podem incluir chá, ervas medicinais e medicamentos. Barris com grãos também foram encontrados, e amostras já foram encaminhadas para análises de DNA. Mistérios ainda cercam o naufrágio
Embora os especialistas já tenham identificado diversos aspectos da embarcação, muitas perguntas permanecem sem resposta. O navio parece ser uma galiota, um tipo de embarcação mercante de dois mastros bastante comum no norte da Europa durante o século 18. Ele tinha aproximadamente 22 metros de comprimento. Grande parte do casco permanece visível no fundo do mar. Duas âncoras ainda estão próximas à proa, enquanto boa parte da carga segue armazenada dentro da embarcação.
O leme, porém, não foi localizado. Os arqueólogos ainda não sabem de onde o navio partiu, qual era seu destino final nem o que aconteceu com as pessoas que estavam a bordo quando ocorreu o naufrágio. Patrimônio protegido e futuro em museu O local passou a ser protegido automaticamente pela legislação norueguesa de patrimônio cultural, impedindo intervenções não autorizadas.
As autoridades também destinaram 2,9 milhões de coroas norueguesas (aproximadamente R$ 1,5 milhão, na cotação atual) para financiar as pesquisas e a conservação dos materiais recuperados. Atualmente, conservadores trabalham na limpeza e estabilização dos objetos retirados do mar para evitar sua deterioração. Paralelamente, arqueólogos, historiadores da arte e especialistas em patrimônio cultural tentam reconstruir a trajetória da embarcação e compreender melhor seu papel em uma época marcada pela expansão do comércio internacional. Espera-se que, no futuro, parte dos artefatos seja exibida ao público no Museu Marítimo Norueguês, em Oslo.