Um adesivo portátil capaz de realizar ultrassonografia contínua em gestantes pode transformar o acompanhamento pré-natal, especialmente em gestações de alto risco. Nomeado de UPatch, o dispositivo monitora em tempo real o fluxo sanguíneo fetal e os batimentos cardíacos do bebê sem depender da atuação constante de um técnico em ultrassonografia. Desenvolvido por pesquisadores dos Estados Unidos e da Inglaterra, o UPatch foi descrito como o primeiro dispositivo vestível capaz de combinar imagens contínuas do feto com monitoramento Doppler do fluxo sanguíneo em estruturas móveis, como o cordão umbilical. Em testes clínicos, cujos resultados foram publicados nesta terça-feira (26) na revista Nature Biotechnology, a tecnologia conseguiu identificar sinais graves de comprometimento fetal, incluindo um caso de pré-eclâmpsia que levou à realização antecipada de uma cesariana para evitar o óbito do bebê.
“O problema dos dispositivos atuais é que eles são intermitentes – conseguem capturar apenas um retrato momentâneo do que está acontecendo com o bebê”, afirma Sheng Xu, um dos líderes do estudo, em entrevista ao jornal The Guardian. “Os pacientes só conseguem fazer essas medições no hospital. Muitas informações se perdem entre as consultas.” Detecção precoce de problemas A ultrassonografia convencional é amplamente utilizada no pré-natal para avaliar anatomia fetal, crescimento e circulação sanguínea. Mas os exames dependem da habilidade do operador e oferecem apenas avaliações pontuais, realizadas em intervalos espaçados.
O monitoramento contínuo atualmente disponível, baseado principalmente em cardiotocografia, mede frequência cardíaca fetal e contrações uterinas, mas apresenta altas taxas de falso-positivo e baixa capacidade de prever complicações graves. O UPatch busca preencher essa lacuna ao permitir acompanhamento prolongado e autônomo. Fixado ao abdômen materno como um adesivo flexível, o dispositivo utiliza ultrassom duplex, uma tecnologia que combina imagem anatômica e Doppler, para monitorar vasos sanguíneos fetais profundos. Um algoritmo de segmentação de imagem identifica e rastreia automaticamente os vasos em movimento, mantendo as medições mesmo durante movimentos da mãe ou do bebê.
Segundo os pesquisadores, isso permite diferenciar alterações transitórias de sinais persistentes de sofrimento fetal, reduzindo o risco de intervenções desnecessárias. Em um dos testes, os autores observaram que flutuações momentâneas nos índices Doppler poderiam parecer problemáticas em exames convencionais rápidos, mas eram benignas quando analisadas continuamente ao longo do tempo. “Você não perde nenhum dado, então consegue identificar a linha de base dos sinais de cada paciente, analisar mudanças e padrões”, explica Xu. “Isso pode levar a diagnósticos mais precisos ou a intervenções mais adequadas.” O estudo validou o desempenho do UPatch em 62 gestantes, comparando suas medições com as de aparelhos clínicos portáteis de ultrassom.
Os resultados mostraram forte concordância entre os sistemas em parâmetros como frequência cardíaca fetal, índices Doppler e avaliação do fluxo sanguíneo. Além disso, o dispositivo foi utilizado para monitoramento contínuo em outras 52 participantes com diferentes condições perinatais, incluindo pré-eclâmpsia, hipertensão gestacional, diabetes gestacional e restrição de crescimento fetal. Os pesquisadores observaram que os índices Doppler apresentaram maior capacidade de distinguir gestações de risco do que apenas a frequência cardíaca fetal. Em um dos casos mais relevantes do estudo, uma gestante com pré-eclâmpsia apresentou ausência recorrente de fluxo diastólico final, que é um marcador de insuficiência placentária grave.
A condição foi identificada pelo UPatch, permitindo intensificação do monitoramento médico e realização de cesariana quatro dias depois. Embora ainda esteja em fase de prova de conceito, o UPatch já demonstra potencial para ampliar o acesso ao monitoramento fetal contínuo, inclusive em regiões com escassez de especialistas em ultrassonografia. Atualmente, o dispositivo ainda depende de cabos conectados a sistemas externos e requer ultrassom convencional para posicionamento inicial. A equipe agora trabalha no desenvolvimento de uma versão sem fio e mais compacta, voltada para uso prolongado em casa e durante atividades diárias.